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Crime cai em São Paulo e Bogotá


Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
Bairro de Alto do Cazuca, na Grande Bogotá: queda de 50% em homicídios
Bairro de Alto do Cazuca, na Grande Bogotá: queda de 50% em homicídios
27.06.2005 |  Basta ligar a TV à tarde em São Paulo para se ter certeza de que vivemos uma guerra civil. Histórias de polícia versus bandidos, tiroteios, assaltos, tráfico, rebeliões, crimes horrendos e muito sangue avermelham a tela em pouco tempo. Não são incomuns as comparações com nações em guerra, como a vizinha Colômbia, onde grupos guerrilheiros e paramilitares lutam pelo poder desde os anos 1960. Não há dúvida de que os índices de violência e mortes ainda são bastante altos nos dois países. Mas, tanto aqui como lá, começam a surgir boas notícias nesse front graças a políticas de desarmamento e estratégias inteligentes e coordenadas que integram polícia, governos e sociedade. O problema é que as vitórias nessa guerra raramente saem nas manchetes dos jornais.

Não que os paulistanos vivam num paraíso de segurança. Afinal, o índice atual de 36,9 homicídios por ano em cada grupo de 100 mil habitantes está quase quatro vezes acima do que seria admissível em qualquer país do primeiro mundo. Mas o anúncio dos resultados de pesquisas importantes da Unesco e da Fundação Seade, mostrando a consistente queda no número de assassinatos no estado de São Paulo nos últimos cinco anos, teve repercussão pífia. O sangue e a miséria sempre chamam muito mais a atenção! Na verdade, segundo os estudos, houve uma redução de 29% nos homicídios de 1999 a 2004.

De acordo com o Seade, o índice da capital paulista no mesmo período é ainda mais impressionante: redução de 40,6% nos homicídios. O principal destaque vai para o Jardim Ângela, que já foi considerado pela ONU como o bairro mais violento do mundo, com uma média de dois assassinatos por dia em 1999. Pois o número de homicídios caiu incríveis 73,3%, e até sexta-feira, 24 de junho, o bairro contabilizava 64 dias sem uma única morte. Seus moradores já não têm tanto medo em sair às ruas e, pouco a pouco, começam a recobrar a auto-estima.

Acredite ou não, a situação é muito parecida com a que vive a capital colombiana. E para o bem! Em 1994, houve 4.457 homicídios em Bogotá, representando uma taxa de 80 mortes para cada 100 mil habitantes (semelhante à do Rio de Janeiro, com um índice de 73,6/100 mil no ano passado). Em 2003, a cidade registrou 1,607 homicídios, ou cerca de 23,4/100 mil. Uma redução de 48% em dez anos. Bogotá é uma capital menos violenta do que São Paulo.


Escrito por Inquieto às 17h21
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Crime cai em São Paulo e Bogotá

 As armas na parede do padre

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
Membros da ONG Projeto Justiça e Vida: ajuda a mães carentes de Ciudad Bolívar
Membros da ONG Projeto Justiça e Vida: ajuda a mães carentes de Ciudad Bolívar
A pergunta, então, é: como essas cidades lograram tal êxito? A resposta começa com o desarmamento da população. "Esta é uma solução que não acaba com os conflitos, mas diminui muito a letalidade dos confrontos", afirma Denis Mizne, diretor do Instituto Sou da Paz, de São Paulo. Os números parecem comprovar sua teoria: o Sistema Único de Saúde do estado registrou em 2004 uma queda de 7% nas internações por ferimento a bala em relação a 2003. Para Mizne, este índice está diretamente relacionado à entrega de 110.535 armas à Polícia Federal entre 15 de julho de 2004 e 1º de junho último pela campanha oficial de desarmamento - fora as 3.550 armas recolhidas pela Campanha Sou da Paz desde 1997. Não existem números específicos para a cidade de São Paulo.

Em Bogotá, é possível fazer a mesma analogia: após uma campanha de desarmamento realizada em 1996 pela prefeitura da cidade - que recolheu 2.566 armas, 350 granadas, sete bananas de dinamite e até uma mina de fabricação israelense -, houve uma queda imediata no número de homicídios por arma de fogo de 31,36% em dezembro daquele ano em relação ao mesmo mês de 1995. Devido a seu sucesso, outras "jornadas cívicas pelo desarmamento" foram realizadas pela igreja católica e pelo governo entre 1998/99, 2001 a 2003, novamente em 2004 e continuam este ano. A queda nos homicídios, entre o primeiro semestre de 2000 e o mesmo período de 2003, foi da ordem de 5,3%.

"Aqui utilizamos um tipo de campanha semelhante à realizada em Nova York, com a troca das armas e munições por bônus que podem ser convertidos em alimentos, roupas ou livros", explica o padre Alírio López Aguilera, diretor do Programa para a Vida Sagrada e Desarmamento da Secretaria de Governo de Bogotá. "Acreditamos que é melhor do que pagar em dinheiro pelas armas, porque assim o valor entregue não vai para bebidas ou cigarros." Cada espingarda de fabricação caseira vale cerca de R$ 40,00 e armas industrializadas são trocadas por bônus que equivalem a cerca de R$ 200,00 em mercadorias. Nas campanhas, revólveres de brinquedo também podem ser trocadas por revistas para colorir, lápis e doces. As armas que não são destruídas viram "obras de arte" e "instrumentos musicais" que adornam as paredes do escritório do padre.

Apesar de eficiente, rápido e fundamental, o desarmamento isolado tem impacto apenas parcial na queda da violência. Sem outras iniciativas associadas, os números tendem a se estabilizar em patamares ainda elevados. É aí que entra outra ferramenta revolucionária na luta contra o crime: o mapeamento geo-refenciado da criminalidade. "Este é um instrumento de inteligência usado há pouco tempo em São Paulo, mas que permite uma ação mais efetiva da polícia e uma integração maior com a sociedade", explica Mizne. "Por meio do Infocrim, da Secretaria de Segurança, a polícia sabe exatamente quais ocorrências são mais comuns em lugares específicos da cidade e pode compartilhar essa informação com a comunidade local, que conhece as falhas que facilitam esses crimes, como a pouca iluminação de uma rua, um semáforo lento, ponto de venda de drogas, degradação da área urbana, etc".

"A padronização da metodologia de aferição dos crimes, o mapeamento geo-referenciado e principalmente a utilização inteligente desses dados por três administrações consecutivas em Bogotá, desde a metade dos anos 90, são os grandes responsáveis pelas políticas de segurança que diminuíram a violência na cidade", afirma Rafael Espinosa del Vallín, pesquisador associado do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento em Prevenção à Violência e Promoção da Convivência Social da Colômbia (CISALVA). "Foi por meio desses dados que se construiu, por exemplo, um programa de cultura e cidadania para recuperar espaços públicos importantes como a Plaza San Victorino, no centro da cidade, que estava entregue ao comércio ilegal de drogas e armas" – lembra o pesquisador.


Escrito por Inquieto às 17h19
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Crime cai em São Paulo e Bogotá

Cerveja e cachaça contra a vida

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
Denis Mizne, diretor do Instituto Sou da Paz, de São Paulo: desarmamento é base de tudo
Denis Mizne, diretor do Instituto Sou da Paz, de São Paulo: desarmamento é base de tudo
Um terceiro ponto a ser atacado é a associação do álcool com as armas. Segundo dados da Secretaria de Segurança Pública de São Paulo, menos de 5% das mortes são por latrocínio, taxa semelhante à de tiroteios com a polícia. "Isso significa que a maior parte dos homicídios resulta de bandido matando bandido ou mocinho matando mocinho", diz o diretor do Sou da Paz. Estima-se que cerca de 60% dos assassinatos no Brasil ocorram por motivos fúteis. A imensa maioria é composta por brigas de bar, discussões no trânsito, em casa ou entre vizinhos. Dados como esse estimularam experiências de fechamento de bares às 22 horas na cidade de Diadema, na Grande São Paulo. Lá, a taxa de homicídios caiu de 75,91 por 100 mil habitantes em 2000 para 34,58 em 2004.

Mas não é só no Brasil que a cerveja e a cachaça são figurinhas fáceis nas estatísticas de crime contra a vida. "Entre 15% e 20% de todas as vítimas de homicídio na Colômbia apresentam altos índices de álcool no sangue", conta Vallín, pesquisador do CISALVA. "Acredito que conciliando apenas o desarmamento total da população com algum tipo de controle na venda de bebidas alcoólicas, teríamos uma queda imediata de pelo menos 30% no número de mortes violentas."

Outro ponto fundamental é a integração da sociedade civil na solução dos problemas. "Perdemos muito tempo no paradigma impossível segundo o qual só se acaba com a violência por meio de forte repressão policial associada à solução de todos os problemas sociais", argumenta Denis Mizne. "Assim como também está errado acreditar que o Estado é o único responsável pela segurança, com a sociedade civil, especialmente a elite, apenas criticando e pautando as ações dos governos cada vez que um de seus filhos é morto."

Para o diretor do Sou da Paz, não existe solução real sem a integração de fato da sociedade civil organizada. No Jardim Ângela, por exemplo, 26 ONGs desenvolvem os mais variados trabalhos voltados à inclusão social. Na ponta de lança estão projetos com foco nos jovens em situação de risco, oferecendo formação profissional, geração de renda e desenvolvimento artístico como opções viáveis à carreira no crime e no tráfico de drogas. No bairro mais violento da periferia de Bogotá, Ciudad Bolívar, ONGs como a Projeto Justiça e Vida garantem a matrícula e a permanência de crianças pobres nas escolas públicas vinculando-as à participação das mães em cursos de cidadania e direitos humanos.

Por último, mas não menos importante, estão outras ações de responsabilidade dos governos para fechar o ciclo de inclusão social. "Não temos dados específicos, mas acreditamos que boa parte da queda nos crimes se deve à política da Prefeitura de São Paulo, a partir de 2000, de iniciar seus programas sociais - como Renda Mínima, Começar de Novo e Bolsa Trabalho - nos dez distritos mais violentos da cidade. A injeção de dinheiro nessas regiões traz novas perspectivas para os moradores", especula Mizne. "Além disso, reformas no sistema viário e melhorias no transporte público facilitaram a vida da população e deixaram os bairros mais bonitos, contribuindo para a auto-estima e a diminuição das depredações.”


Escrito por Inquieto às 17h12
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