Ler e pensar


Escrito por Inquieto às 13h06
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Papa - Schiavo

O papa e a morte - DENIS LERRER ROSENFIELD

O papa morreu dignamente em seus aposentos apostólicos. A sua agonia foi seguida por milhões de fiéis em todo o mundo, sem que se saiba, ao certo, as condições em que ocorreu a sua morte. Os assuntos do Vaticano são sempre cercados de sigilo.

Indicações, porém, foram dadas de várias doenças que lhe acometeram durante os últimos anos, quando as suas internações hospitalares começaram a ficar freqüentes. A sua saúde foi se deteriorando, embora a sua força o fizesse sair de cada uma dessas situações. Contudo, nessa sua última internação, ele parece ter tido consciência de seria efetivamente a última, restando-lhe a escolha entre a morte hospitalar e a morte em seus aposentos, com as pessoas que lhe eram próximas.
Diante da morte iminente, uma questão se colocou: como deveria ele terminar os seus dias? Deveria ele os tentar prolongar artificialmente graças aos modernos instrumentos científico-tecnológicos? Deveria ele se submeter a essa forma de arbítrio humano? Será ela a vontade de Deus? A forma de encarar a morte e o modo mesmo de morrer tornaram-se questões de extrema atualidade depois do longo sofrimento -15 anos- de uma americana que vivia vegetativamente. As opiniões mais divergentes e acirradas se fizeram presentes.
Na prolongação artificial da vida, a ação humana se torna uma espécie de árbitro último, pois o processo biológico, por si só, já está esgotado. Sob um registro teológico, poder-se-ia dizer que a vontade de Deus se faz através de um processo que encontra a sua culminação natural na morte. Nessa perspectiva, os esforços humanos de prolongar artificialmente uma vida também poderiam ser considerados atos humanos gratuitos contra a vontade de Deus. Num certo sentido, pode-se ainda dizer que Deus quer o fim de cada um de nós, por termos a finitude como nosso horizonte próprio, por Ele desenhada. Ademais, Ele sinaliza o fim de cada pessoa através de um processo natural único de decadência biológica, que encontra o seu encerramento na falência de um ou vários de nossos órgãos. É lícito, portanto, afirmar que prolongar indefinida e artificialmente a vida de alguém é um ato "contranatura", contra a vontade de Deus, pois a natureza é sua obra.
João Paulo 2º parece ter tido plena consciência dessa confluência entre a liberdade de escolha e a vontade de Deus presente nos processos naturais. A liberdade de escolha está presente no ato de sair de um hospital e a ele decidir não mais voltar, sabedor que era de que seus dias estavam contados. Poderia ter ele ficado no hospital, utilizando-se de todos os recursos tecnológicos à sua disposição, potencializados ainda mais por se tratar do sumo pontífice. Meios não lhe faltariam. O que surpreende, contudo, é a renúncia a tais meios, a consciência de que sua vida terminava e ele entendia isso como sendo a vontade divina. O ato livre opera tendo como contexto a iminência da morte. Essa, por sua vez, é compreendida como a passagem para um outro mundo, como a conseqüência natural, normal, de um processo que chega ao fim.
No momento em que um cardeal da cúria, empregando uma bela imagem, declara que o papa "já vê e toca o Senhor", ele poderia igualmente ter dito que o papa "se deixou ver e tocar pelo Senhor", assumindo o seu estado e se preparando para essa passagem. Ao se deixar morrer, João Paulo 2º escolheu, com os seus, a passividade do seu estado, entregando-se ao seu destino. Entregar-se ao seu destino é o ato de liberdade de uma pessoa consciente da naturalidade do seu corpo, por mais divina que possa ser a sua significação.
Como os espíritos andam particularmente agitados com o problema propriamente humano da morte, seja pelo papa, seja pelas diferentes questões postas pelo nome genérico de eutanásia, seja por filmes que abordam esse tema, talvez seja o momento de precisar o que está no centro dos debates, para além dos preconceitos.
O ato de causar ativamente a morte de uma pessoa em estado terminal é o que se denomina propriamente de eutanásia. No caso, aplicar uma dose excessiva de um medicamento pode ser o agente causador do fim de um indivíduo que não mais suporta a dor. Os seus próximos podem também assim ter compreendido e, em concordância com os médicos, tomam essa decisão.
Para além do aspecto polêmico desse ato, ele deve ser distinguido de um outro, que se caracteriza pela livre aceitação da morte, uma vez que não há mais recursos disponíveis para manter a saúde de uma pessoa ou uma vida minimamente digna. Deixar alguém morrer naturalmente, aceitando o curso biológico, não deveria ser propriamente denominado de eutanásia. As palavras podem facilmente embaralhar o juízo.
O exemplo do papa nos obriga a repensar o significado da vida e das atitudes que, em nome de Deus, terminam por exaltar o livre-arbítrio dos homens. Se o mundo não é governado por Deus, se a nossa vida é fruto do acaso, cabe a cada um decidir como terminar os seus dias, seja pelo suicídio, seja pela eutanásia (ativa), seja pela livre aceitação do destino. Valem aqui a razão e um Estado independente da religião.
Se o mundo é governado por Deus, se ele é Sua criatura, a vontade humana deve estar circunscrita por Sua obra, e essa se faz pela natureza na qual se expressa a Sua finalidade. E não se faria ela na livre aceitação de um processo de vida que encontrou naturalmente o seu fim?

Denis Lerrer Rosenfield, 54, doutor pela Universidade de Paris 1, é professor titular de filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul e editor da revista "Filosofia Política".


Escrito por Inquieto às 16h11
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Rinha federal

 

Delegado que prendeu Duda diz que é perseguido

por Claudio Julio Tognolli

Assédio moral. Stalinismo. Terrorismo administrativo. Esses vocábulos brotam com facilidade da boca do delegado federal Antônio Carlos Rayol, um dos mais respeitados da Polícia Federal, quando fala do que vem suportando desde que entrou em rota de colisão com figuras do alto escalão do governo.

Depois de 28 anos de corporação com uma folha de serviços sem reparos, o delegado sofreu, em dois meses, cinco diferentes sindicâncias. Por trás desta devassa está o fato de Rayol ter comandado a operação que resultou na prisão do publicitário Duda Mendonça numa rinha de galos, no Rio de Janeiro, em outubro passado. Desde então, conta, não teve mais paz. Tampouco sua equipe. “Fomos dissolvidos e perseguidos”, diz o delegado.

Em entrevista à revista Consultor Jurídico, o delegado Rayol desabafa:

O senhor é agora perseguido técnica e politicamente ?

A história é um pouco complexa. No dia 28 de outubro do ano passado, ou seja, sete dias depois da operação, que foi no dia 21, saiu uma nota no jornal Folha de S. Paulo segundo a qual o presidente Lula teria determinado ao ministro da Justiça que investigasse se a operação teve motivação política, e que tomasse as providências que julgasse adequadas, inclusive com troca de comandos.

Com essa expressão “troca de comandos”?

Sim, esta expressão foi usada pelo jornal Folha de S. Paulo. Em razão disso nós começamos a observar que realmente começaram a acontecer coisas estranhas, uma movimentação estranha inclusive dos advogados do Duda Mendonça. O fato é que de lá para cá eu, o delegado Lourenço e os dois agentes que assinaram o auto de prisão em flagrante, fomos retirados da Delegacia do Meio Ambiente e espalhados pela Superintendência do Rio de Janeiro. Cada um foi para um setor diferente. A administração tentou mandar os agentes Guimarães e Amado numa viagem de serviço sem data prevista de retorno.

Que viagem?

Eles só não foram nessa viagem porque entraram com um mandado de segurança. Houve uma pressão muito grande da mídia porque a coisa ficou óbvia demais. Eles se livraram da viagem mas foram afastados da Delegacia do Meio Ambiente.

E o inquérito?

O inquérito 133, que investigava essas rinhas de galo, foi paralisado por muito tempo, depois da nossa saída. E uma coisa interessante é que desde então, até o presente momento, foram instauradas, na Superintendência do Rio de Janeiro, cinco sindicâncias, e sabe-se lá mais o que poderão fazer, que são sindicâncias para apurar as coisas mais estapafúrdias possíveis, todas relacionadas à operação das rinhas de galo.

E com o senhor?

Vou completar agora 28 anos de serviço público sem nenhuma punição. De repente me transformo num funcionário respondendo a cinco sindicâncias. Ou seja: ou eu enlouqueci ou tem alguma coisa de muito estranho acontecendo. Esssas sindicâncias estão sendo instauradas, estão sendo direcionadas contra a minha pessoa, contra o delegado Lourenço e contra os agentes Amado e Guimarães, que são os quatro principais responsáveis pela operação e são os quatro policiais que foram arrolados pelo Ministério Público como testemunhas de acusação no processo contra Duda Mendonça e outras cinco pessoas envolvidas com a rinha de galo.

Os senhores são perseguidos politicamente?

Eu não tenho outra explicação. Tudo o que está acontecendo é muito estranho. Estamos sendo acompanhados por advogados e eles estão identificando, em tudo o que está acontecendo, um completo cabimento daquilo que na doutrina vem sendo chamado de assédio moral. O que encontramos como exemplos de assédio moral, na doutrina, são exemplos que se encaixam como uma luva nas coisas que estão acontecendo conosco hoje. Eu fui retirado da chefia da Delegacia do Meio Ambiente depois de estar naquela delegacia por três meses, e disseram que foi um ato de rotina. Isso é um absurdo.

Por quê?

Nenhuma organização do mundo troca a chefia de três em três meses. E eu pedi ao Serviço de Recursos Humanos da Superintendência da PF do Rio, certidão com todas as chefias que já ocupei e o período em que fiquei em cada uma. Eu nunca fiquei em nenhuma chefia por menos de dois anos. Esse é o período normal. O único caso em que alguém é retirado de uma chefia por pouco tempo, como foi no meu caso, três meses, é quando a pessoa cometeu alguma irregularidade muito grande ou ela está sendo encaminhada para outra chefia. Não foi nada disso o que aconteceu comigo. Fui retirado da chefia e não recebi sequer um telefonema me avisando que estava sendo retirado. Fiquei sabendo pela publicação no boletim de serviços.

O que isso significa?

Foi uma coisa já feita, cuidadosamente planejada para desmoralizar, para humilhar, e isso tem sido feito não só comigo como também com os outros funcionários. O agente Guimarães, por exemplo, é um agente em final de carreira, um agente especial. Segundo o regulamento do Departamento de Polícia Federal, deve ser empregado em tarefas mais complexas. Hoje ele foi colocado num balcão entregando documentos, que é uma tarefa normalmente reservada ao policial que está ingressando na carreira. Tudo tem sido feito para humilhar, para desmoralizar, para quebrar o moral dos funcionários, para nos intimidar com essas sindicâncias. Agora eles estão tentando inventar irregularidades que nunca existiram na operação da rinha de galos, para poder justificar todas essas medidas estranhas que eles têm tomado.

Outros governos fizeram o mesmo?

Olha, isso não é uma coisa nova, não só na Polícia Federal como em outras polícias. Isso tem acontecido com uma certa regularidade. É uma prática lamentavelmente instalada, essa questão da interferência política. Mas, um caso como esse, eu nunca vi. Ele está sendo feito de uma forma tão escandalosa. As pessoas que estão promovendo esse terrorismo administrativo, agem de uma forma tão escancarada, como se tivessem certeza de que nada acontece, de que não existe Judiciário, de que não existe Ministério Público. Eles estão revoltando toda a categoria, porque todos os policiais do Brasil querem ver o fim dessas práticas. Se a população quer uma polícia que investigue com isenção e independência, essa polícia tem de ter um mínimo de salvaguarda. Se toda a vez que esbarrar num poderoso ou num amigo de poderoso acontecer esse tipo de coisa, a polícia não é mais republicana. Isso que estamos verificando agora é uma conjuntura completamente stalinista.

Revista Consultor Jurídico, 05 de abril de 2005



Escrito por Inquieto às 17h26
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Surpresa: o meio-ambiente, cada vez melhor

 

por Paulo Leite, de Washington, DC (http://www.diegocasagrande.com.br/index.php?open=artigos&id=1319)

 
Quando o assunto é meio-ambiente, a tônica na mídia é pessimismo e mais pessimismo. As más notícias são tantas que é um milagre ainda estarmos vivos. Aquecimento global, poluição do ar, da água e do solo, extinção de espécies animais e vegetais, a lista de problemas parece infindável. A pergunta que sempre fica no ar é “que tipo de mundo vamos deixar para nossos descendentes?”

A resposta, surpreendentemente, parece ser: “um mundo melhor”. Pelos menos, é o que argumenta Terry Anderson, diretor-executivo do Centro de Pesquisas da Propriedade e do Ambiente e bolsista da Hoover Institution da Universidade de Stanford. Terry é o editor do livro “You Have to Admit It’s Getting Better” (“Você tem que admitir que as coisas estão melhorando” – obrigado, Beatles), que derruba alguns dos mitos mais caros ao coração dos ambientalistas.

No processo, Terry Anderson e autores como Bjorn Lomborg, Robert E. McCormick e Seth W. Norton mostram que a prosperidade de que desfrutamos hoje em dia, longe de empobrecer as futuras gerações, vai deixar como legado mais capital e maiores estoques de recursos naturais. Quer dizer, o crescimento econômico não é, como se pensa, inimigo do meio-ambiente. Muito pelo contrário.

Por exemplo: no debate sobre aquecimento global, muito se fala sobre as emissões de carbono dos países desenvolvidos, especialmente dos Estados Unidos, que mesmo sendo o maior emissor de gás carbônico do mundo se recusou a assinar o Protocolo de Kyoto.

Num dos capítulos mais interessantes do livro, Robert E. McCormick mostra que, ao contrário do que dita a sabedoria convencional, a emissão líquida de gás carbônico (emissão bruta menos gás carbônico aprisionado em florestas e retido de outras formas) parece diminuir conforme a renda de um país aumenta.

Segundo os estudos mais recentes, as emissões de gás carbônico parecem diminuir quando a renda per capita atinge os 35 mil dólares anuais. Isso significa que os Estados Unidos parecem destinados a deixar em breve de ser o maior emissor, já que sua renda per capita está no momento ultrapassando essa faixa.

A exemplo do que fez em “O Ambientalista Cético”, Bjorn Lomborg desmonta num dos capítulos de “Getting Better” as previsões catastrofistas de gente como Julian Simon, que mostravam um futuro de escassez e destruição. Ao contrário, uma análise honesta dos números disponíveis em várias áreas mostra que “as crianças nascidas hoje – tanto no mundo industrializado e nos países em desenvolvimento – vão viver por mais tempo e com mais saúde, vão dispor de mais alimentos, de uma melhor educação, um padrão de vida mais alto, mais tempo de lazer e possibilidades muito maiores – sem que o meio-ambiente global seja destruído”.

Outros capítulos do livro (que pode ser lido no site da Hoover Institution, www-hoover.stanford.edu/publications/books/better.html) mostram como, depois que os países mais ricos gastam milhões de dólares inventando filtros anti-poluição e tecnologias cada vez menos lesivas ao meio-ambiente, o custo desses equipamentos se torna bem mais razoável, permitindo que os países em desenvolvimento adotem rapidamente formas mais “limpas” de fazer crescer suas economias.

Numa das passagens mais interessantes da obra, Seth W. Norton mostra que a liberdade e o respeito às leis e a melhoria do meio-ambiente estão estreitamente ligadas. Numa análise de vários estudos, Norton nota que os países onde os contratos são seguidos à risca, a burocracia é eficiente, o sistema legal é respeitado e eficaz e a corrupção minimizada, a qualidade do ambiente é sempre superior à de países onde tais condições não existem. Mais um ponto a favor da liberdade.

O grande mérito de “You Have to Admit It’s Getting Better” é mostrar que o negativismo e a constante previsão de catástrofes e desgraças pode ajudar a vender jornais e revistas, a aumentar os índices de audiência de estações de rádio e TV e a dar prestígio para alguns cientistas, mas tem quase nada a ver com a verdadeira ciência. Nem com ambientalismo honesto.
 
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