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O racismo negro
LUÍS NASSIF
Um dos grandes ativos brasileiros é a convivência racial, especialmente naquilo que o Brasil tem de melhor: o povo brasileiro. Existe um racismo disfarçado em alguns setores, classe média e alta não-intelectualizada, em alguns ambientes, não no ambiente popular. Freqüento botecos onde convivem brancos, pardos e negros, em que posso chamar o Almeida de "negão" sem ser acusado de racismo, assim como ele pode me chamar de "turco". Tenho liberdade para lhe dizer que "negão" só faz besteira, ele de me ameaçar com um "navio branqueiro" quando tomar o poder, sem precisar dar satisfação de nossa amizade e nossas brincadeiras a nenhum centurião do politicamente correto. Nosso ponto em comum é a amizade e a música, é cantar dona Ivone Lara e Ary Barroso, é celebrar a mistura de raças, que me permite ter sobrinhos com 50% de sangue judeu e quase outro tanto de sangue libanês. Corra-se a periferia de São Paulo, das grandes cidades, freqüentem-se as pequenas cidades e se verá o povo irmanado na música, no futebol, na solidariedade para enfrentar um modelo econômico perverso. Se souber que meu condomínio discrimina negros ou pobres, irei até as barras do tribunal para fazer valer a lei, porque o Brasil tem leis expressas para colocar racista na cadeia. No entanto, sob a capa das políticas compensatórias, está em marcha um processo que pode fortalecer o pior dos mundos: a intolerância racial aberta, praticada por grupos negros politizados, especialmente contra pardos e brancos de estratos sociais inferiores. Semanas atrás fui jurado em concurso de práticas sociais da Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro. Um dos projetos era um curso profissionalizante em uma favela de Belo Horizonte, ao qual só tinham acesso alunos negros. O favelado quase branco, quase negro passou a sofrer duas espécies de discriminação: fora do seu meio, por ser favelado; no seu meio, por ser um quase negro, quase branco. O ministro Patrus Ananias (Desenvolvimento Social) tem uma assessora negra retinta, lustrosa, bonita, instruída. Foi vetada em um bloco de Carnaval em Salvador porque consideraram que sua negritude não era plena. O Brasil não merece isso! E, quando se entram com políticas compensatórias raciais -como é o caso das cotas para negros em universidades-, começa a se dar legitimidade institucional a esse racismo. Pode-se discutir ou não a legitimidade de cotas para alunos de escolas públicas, cotas para pobres, mas não cotas para negros. Como é que se vai aceitar esse pensamento desvairado e transformar em política pública algo que começa a contaminar até as relações de solidariedade nas classes populares? As cotas raciais, assim como a elegia a esse racismo negro, são uma ameaça concreta que precisa ser abortada no berço. Não se pode cair na esparrela da dívida histórica para tornar mais deserdados ainda os simplesmente pobres. E viva Paulinho da Viola -meio negro, meio branco.
Dirceu nos EUA O cicerone do ministro José Dirceu nos Estados Unidos é um brasileiro muitíssimo bem informado, ligado à ala "light" do Partido Republicano. E o ponto de contato não é George Bush pai.
E-mail - Luisnassif@uol.com.br
Escrito por Aleixo às 11h41
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A conversa chegou à cozinha
Guilherme Fiuza - http://www.nominimo.com.br
O Brasil está discutindo se o presidente Lula cometeu crime de acobertamento. Qualquer que seja o conceito forjado pelos Odoricos Paraguaçus do PSDB, esta polêmica está apontada para o lado errado. Muito mais importante do que saber se Lula pode ser processado pelo delito A, B ou C, é constatar que ali está um homem despreparado para o cargo que ocupa. E que não é um caso de desonestidade, má orientação ideológica ou falta de experiência. É um caso de ignorância.
O Brasil esclarecido ficou com medo de ser preconceituoso, e se convenceu de que aquela discussão sobre a falta de diplomas de Lula era pouco democrática. Na adoração ao presidente de origem humilde, a população culta passou quase a lhe agradecer por seus erros de concordância. Ele mesmo, bem instruído por Duda Mendonça, começou a fazer piadas sobre o assunto, e todos se descontraíram. Não seria pela falta de um plural aqui e outro ali que o país desconfiaria de seu grande líder popular.
O erro foi acreditar, desde o início, que o problema era este. Intelectuais gritavam que a patrulha contra o mau português do presidente era desprezível e autoritária, sem notar que a questão central não estava no linguajar tosco de Lula, mas na forma tosca como ele percebia e traduzia a realidade à sua volta.
Em outras palavras, Lula demonstrou várias vezes não compreender, ou compreender muito mal, o que se passava em torno dele. Numa decisão pessoal, em completa falta de senso de medida de seu próprio poder, determinou a expulsão do correspondente do “New York Times” por causa da matéria sobre seus hábitos alcoólicos. Depois da tempestade em copo d´água, acabou tendo que rever o arroubo. Quando se aproximou de um grupo de jornalistas para chamá-los de covardes (por não encamparem a proposta do Conselho Federal de Jornalismo), Lula não tropeçou no português. Revelou apenas sua avaliação pobre, primária, do assunto em questão e do peso que teria uma palavra daquelas proferida pelo presidente da República.
No presidencialismo brasileiro, altamente centralizado, o chefe do governo é uma espécie de cimento de todas as instituições. O que ele fala, o que ele pensa ou o que dizem que ele pensa tem impacto contundente e imediato em toda a sociedade. Daí o problema de um presidente que aprendeu a falar o que pensa, mas, aparentemente, não aprendeu direito a pensar sobre o que fala.
O que mais impressionou no discurso de Lula no Espírito Santo não foi a leviandade com que tratou assunto grave, nem as reticências e imprecisões da acusação, cheia de sujeitos e objetos ocultos, como se estivesse numa mesa de bar. O que mais impressionou foi justamente o fato de não ter sido um “discurso atravessado”, como o próprio presidente tentou desconversar no dia seguinte. Foi um discurso retilíneo. Muito claro e pausado. Lula não estava no embalo de uma pregação inflamada, daquelas em que palavras mal postas podem ricochetear aqui e ali. Ele estava sereno, didático, e pediu a atenção geral para contar um caso. Passou então a narrar calmamente a tal “denúncia” de que um alto funcionário de seu governo encontrara seu órgão falido pela corrupção no governo anterior, culminando com a revelação do próprio Lula de que mandara o sujeito calar a boca, para não ferir a credibilidade da tal instituição.
Ou seja, uma lambança completa, narrada com orgulho pelo presidente da República, a título de exemplo para a “venda de otimismo” ao país. Toda a polêmica que sobreveio sobre BNDES, privatização das elétricas, crime de responsabilidade, verborragia, discursos improvisados etc não contempla o fato central: um homem naquela posição, investido daquele cargo, só pode apresentar tal falta de discernimento se tiver os dois pés fincados num estado de considerável ignorância.
É desagradável, frustrante, mas o Brasil vai acabar tendo que reconhecer a coincidência. Seu presidente que veio mais de baixo é também, provavelmente, o mais fraco, o mais primário. Perto dele, Eurico Dutra e Itamar Franco são poços de genialidade e astúcia. Mas, como Deus é brasileiro, o país vive uma época em que disparates do presidente não fazem nem cócegas no dólar – o mercado, outrora temperamental, hoje não está nem aí para essas trapalhadas políticas.
Além disso, Lula é e continuará sendo um símbolo forte, um grande brasileiro. Se o vento continuar a favor, isto pode até bastar para manter a nau aprumada. Mesmo que ele continue em seu idílio particular, sem dar entrevistas e querendo enquadrar a imprensa, pode manter-se como ícone democrático. Mito é mito. O único problema é que mito não governa, não lidera, não faz planos, não toma decisões cruciais.
Em resumo, o posto de chefe de Estado no Brasil está vago, por falta de aptidão. O plano inicial era que Lula desfilaria por aí regando seu próprio folclore, e José Dirceu governaria junto com Waldomiro Diniz. Mas pegaram Waldomiro, Dirceu fragilizou-se e o país ficou de frente para a inconsistência do ex-operário. De qualquer forma, enquanto o problema forem só os seus erros de português e suas gafes, os brasileiros estarão no lucro.
Escrito por Aleixo às 10h03
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Sua Santidade e o Fórum
(*) Janer Cristaldo
28/02/2005
Num dos últimos bastiões das esquerdas tupiniquins, a revista Caros Amigos, lemos um emblemático artigo de Elaine Tavares, intitulado “A democracia agonizante”. A articulista, considerando que os povos gestam novas formas de poder, faz um breve apanhado das restrições das esquerdas à idéia de democracia, expressas no último jamboree dos utópicos desvairados em Porto Alegre, que também atende pelo pomposo novo de Fórum Social Mundial.
O conceito de democracia foi um tema dominante nos debates, e a jornalista arrola algumas opiniões das estrelas mais fulgentes do fórum. Para José Saramago, está mais do que na hora de romper com essa falsa questão que coloca a democracia como “santa de altar”. É em nome dela que os Estados Unidos fazem a guerra, por exemplo, ou que o capital financeiro governa o mundo. "Não foram os povos que decidiram isso. Então, que democracia é essa?", inquiriu o escritor português.
Para o professor peruano Aníbal Quijano, é preciso fazer nascer um outro tipo de conhecimento, nascido das práticas sociais. Segundo ele, a América Latina deve sair de seu eurocentrismo, criar outra forma de fazer ciência social e re-inventar o conceito de democracia que, hoje, nada mais é do que uma igualdade de desiguais. "Apenas 20% das seis bilhões de pessoas têm acesso aos bens produzidos no mundo. Isso é uma acumulação jamais vista". O professor parece ainda não ter entendido que democracia é um sistema político e não um regime econômico.
Com ele concordou Saramago que, dizendo-se um não-utopista,desancou a democracia alegando que, dela, ninguém mais espera milagres. Para ele, a democracia há tempos foi seqüestrada e amputada pelo capital financeiro que governa o mundo. Claro que jamais foi seqüestrada ou amputada pelas repúblicas democráticas (sic!) soviéticas.
Edgardo Lander, da Venezuela, também se coloca a favor de um novo padrão de conhecimento que não esse trazido pela modernidade, que significou conquista, escravidão, submissão, genocídio. Para ele, a democracia liberal e suas conquistas estão em franco declínio. O modelo social-democrata está fazendo água, a esfera pública, a liberdade de pensamento, os direitos conquistados, tudo se esvai. O controle dos meios de comunicação impede novas formas de pensar. "O modelo de democracia em vigor é o padrão de poder. Nega a diversidade da história, da cultura, da forma de ser e estar no mundo. A democracia precisa ser re-pensada na totalidade das operações de poder, inclusive nas relações individuais". Para Lander, claro que o regime comunista, que imperou no século passado, nada tem a ver com conquista, escravidão, submissão ou genocídio. Apesar dos cem milhões de mortos que produziu no decorrer da História.
Escrito por Aleixo às 14h37
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James Petras também criticou a democracia burguesa afirmando que, nela, tudo está delimitado pelo poder financeiro. Há limites e políticas muito bem definidas para o poder eleitoral. Escolhe-se - e todos sabem como - o governante, mas o sistema não consulta o povo sobre as mudanças na previdência, a intervenção na Amazônia, ou sobre qualquer grande tema nacional. "Se a população passar do limite, o Estado burguês intervém. Por isso, só se pode derrotar o Estado se o povo se organizar". Como se nos regimes comunistas alguém consultasse o povo sobre qualquer mudança.
A jornalista de Caros Amigos, em seu estro poético, fala de novas liras que “dão seus primeiros acordes e propõem formas alternativas de decidir e viver em comunidade”. Arrola como exemplo os novos zapatistas da região de Chiapas, México, onde a forma de exercer o poder passa pelas Juntas de Bom Governo. “Lá, as pessoas se reúnem em grupos de quatro, cinco, e colocam o tema em discussão até chegar a um consenso. Depois, vão para o grande grupo formar outros consensos. (...) Ninguém manda mais ou menos. Tudo é decidido em comunhão. Não passa pela eleição, por exemplo. Para o representante chiapaneca no Fórum, "tudo o que queremos é mudar esse mundo. Sair dessa lógica capitalista, opressora”.
Outras formas decisórias em marcha para substituir a agonizante democracia seriam as proclamadas pela sedizente República Bolivariana da Venezuela, liderada pelo último guru das esquerdas do continente, o coronel Hugo Chávez. A constituição de 1998 instituiu os plebiscitos, nos quais o povo tem a chance de mudar tudo o que quiser. Desde o presidente (desde que não seja o presidente Hugo Chávez, é claro) até as decisões do legislativo, desde que não conflitem com as decisões do presidente Chávez, é claro.
No plano da organização comunitária, os Círculos Bolivarianos e as Missões também apresentam novas maneiras de exercício do poder que se explicitam como pequenos coletivos de democracia direta. A jornalista deve ser jovem e provavelmente nunca ouviu falar nos sovietes, afinal a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas já afundou há quatorze anos e este incomensurável lapso de tempo deve escapar à escassa memória da moça.
Também seriam alternativas à democracia burguesa os trabalhadores bolivianos de El Alto, com suas gigantescas marchas e seus protestos, os cocaleiros, os piqueteiros argentinos, os indígenas do Equador, os camponeses do Paraguai, todas essas são experiências de novas formas organizativas e de reação ao mundo do pensamento único. “Novas liras para novas conjunturas.” A democracia liberal está nos seus estertores. Já não serve mais, conclui a jornalista anunciadora dos novos tempos. Até aí, tudo muito coerente com os propósitos do Fórum, pois para isto se reuniram os derrotados do século, para transudar seu ressentimento ante a vitória do mundo democrático com o desmoronamento da União Soviética na década passada.
O que espanta e foge à coerência é ver um dos líderes do planetinha – que graças a um providencial traqueostomia nos poupará de suas bobagens nas próximas semanas – formar fileiras com os alucinados do Fórum. Trata-se, nada mais nada menos, de sua Santidade, o papa João Paulo II, que considera que a democracia não pode ser entendida como um valor em si, desligada da "lei de Deus". Esta brilhante percepção, que revela um viés teocrático que João Paulo nunca conseguiu esconder - está no seu livro Memória e Identidade, lançado na semana passada em vários países, inclusive no Brasil.
Para o papa, a permissividade moral – leia-se o direito de cada pessoa dispor de seu corpo para seu prazer - é um programa que conta com "enormes meios financeiros" em escala mundial, impondo-se nos países em desenvolvimento. Face a tudo isso, é legítimo questionar se não estamos perante uma nova forma de totalitarismo, dolosamente velado sob as aparências de democracia".
Escrito por Aleixo às 14h36
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De cambulhada, João Paulo se pergunta se o casamento entre homossexuais não seria motivado "por mais uma ideologia do mal, talvez mais astuciosa e encoberta" e sugere que a democracia possa embutir riscos muitas vezes ignorados. Para ele, a "lei natural" deve ser o limite para a lei do homem, e os legisladores, como Moisés, deveriam ser veículos das determinações de Deus. Em bom português: por lei natural o papa entende o que os dogmas eclesiásticos acham que seja lei natural. E que os estados contemporâneos deveriam reger-se pelas determinações de um personagem mítico de mais de 20 séculos atrás, cuja obra conhecida está longe de ser provada como de sua autoria. Mas que tem a ver este potentado de Roma com a sexualidade humana? Em que tábuas ou pergaminhos está escrita esta tal de lei natural? Mesmo que estivesse escrita, que temos nós, homens do século XXI, a ver com ela? Mesmo agonizante, João Paulo ainda luta por um Estado teocrático.
"Quando um Parlamento autoriza a interrupção da gravidez", declara o papa, "comete uma grave prepotência contra um ser humano inocente. Os Parlamentos que aprovam e promulgam semelhantes leis devem estar cientes de terem extravasado as próprias competências, pondo-se em aberto conflito com a lei de Deus e com a lei natural." Ou seja, Sua Santidade considera-se o dono da verdade – e a partir de tal pretensão – julga que o mundo todo deve submeter-se a seu cetro. Como se todos os seres humanos cressem no deus cristão e tivessem de submeter-se à vontade soberana do Vaticano.Aiatolá algum pretenderia mais do que isso.
O papa ainda alerta que não se pode canonizar a democracia e diz que outras formas de governo, como aristocracia e monarquia, podem, em determinadas condições, servir para a realização do objetivo essencial do poder, isto é, o bem comum, respeitadas as "normas éticas fundamentais". Esqueceu de esclarecer que há monarquias e monarquias, e que as monarquias européias têm um parlamento que elabora leis segundo a vontade de seus eleitores. Exceto a monarquia vaticana, onde só ele – Sua Santidade – tem poder de voto e ainda se pretende infalível. Diferença alguma da monarquia cubana. Não por acaso, há alguns anos Castro e João Paulo II mantiveram um afável tête-à-tête.
À Sua Santidade agonizante, só posso desejar mais vida. Para que ainda possa participar do próximo Fórum Social Mundial e mostrar ao que vem, cerrando fileiras com os inimigos da democracia.
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(*) Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor e vive em São Paulo.
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Escrito por Aleixo às 14h36
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A natureza do escorpião
Por Reinaldo Azevedo - http://www.primeiraleitura.com.br/
Conhecem a fábula do escorpião, não é mesmo? Para quem não sabe: é aquela em que o aracnídeo pede ao sapo que lhe empreste as costas para atravessar um rio. O outro desconfia: “Você vai me picar”. Cheio de lógica, aquele que pediu a carona argumenta: “Não vou ferroá-lo, ou ambos morreríamos”. O sapo, que havia estudado lógica, acha razoável e dá carona ao bicho. No meio do caminho, pimba!, sentiu o ferrão penetrar-lhe a carne sapal. Antes que expirasse, teve tempo de ser lógico uma última vez: “Mas ambos vamos morrer!”. Ao que lhe respondeu o outro, partidário do fatalismo trágico: “Não posso fazer nada. É a minha natureza”. É isso aí: o PT tem uma natureza. Para exercê-la, se preciso, investe na crise. Mais uma vez. Mas desconfio que, desta vez, vai-se ferrar sozinho.
Os petistas, é visível, estão acuados, mesmo quando reagem com agressividade e ameaças veladas, como faz José Dirceu, outro que até pode mudar de face, mas não de essência. Anunciada a disposição do PSDB de tentar processar Lula por crime de responsabilidade, faz as suas ameaças, sugerindo que o “feitiço pode se voltar contra o feiticeiro”. Bravatas novas que se somam às antigas. Márcio Thomaz Bastos, que raramente perde uma chance de degradar a sua biografia jurídica, diz que, caso se fale em CPI, “só se for das privatizações” havidas no governo FHC. Por que a ilação? Este senhor é ministro da Justiça, não um rábula qualquer do petismo. Sabe de alguma irregularidade e também se calou? Se o fez, prevaricou ele também.
O caso é, leitores, que eles não sabem de nada! Trata-se apenas do exercício da natureza do escorpião. Tanto não sabem que reparem bem como, na prática, de Lula a seus bate-paus, passando por Carlos Lessa, estão todos tirando o time de campo. O sempre loquaz, estridente e exótico ex-presidente do BNDES, que passou dois anos a sugerir a existência de pesadas irregularidades no banco, diz agora que não era bem isso, não. Que se referia a supostos problemas financeiros da instituição e blablablá. Vale dizer: ele não sabia de nada. Quando muito, tinha divergências sobre procedimentos adotados, mas que, à moda da casa e para atender à vocação escorpiônica, transformou em denúncia vazia. Pois bem: Luiz Carlos Mendonça de Barros, ex-presidente do BNDES, dará a Lessa uma excelente chance de se explicar por meio de um processo.
A nota de FHC é um exemplo de rigor com as instituições e com a realidade política, dando ao presidente uma saída. Lula falou demais e sem pensar? Se o fez, que se explique e se retrate. Se mantém o discurso, o Congresso, como instituição, tem de tomar providências. Está obrigado a abrir processo por crime de responsabilidade contra o presidente e o “companheiro” que com ele compartilhou o segredo. Cometeram-se acobertamento de crime e prevaricação. Mas há um outro probleminha aí: se Lessa está falando a verdade agora e nunca denunciou corrupção no BNDES, então quem está mentindo é Lula. E mentiria por quê?
Escrito por Aleixo às 16h26
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A natureza do escorpião II
Atencão agora
Neste ponto, peço ao leitor atenção para uma questão importante: sim, o PT quebrou a cara desta vez porque Lula não ensaiou direito o texto de palanque. Mas o que o levou ao discurso é método. Ele já está em franca campanha eleitoral, e os feitos que têm a exibir são bem menos vistosos do que dá a entender certa mídia. A cara de seu governo é o desemprego ter voltado aos dois dígitos; é o corte de quase R$ 16 bilhões no Orçamento; é a vergonhosa desídia no Ministério da Saúde, cuja incompetência e politicagem revelam uma face verdadeiramente homicida; é a reforma universitária soviética. E Lula já está em busca de um palanque.
Há um certo fermento de antigovernismo se formando, tanto na sociedade como no meio político. O governo Lula, tudo indica, já atingiu o ápice de suas “realizações”. A chance de que tenha chegado a um ponto de inflexão e venha agora a colher desgastes é muito grande. Qual é, afinal, o último ativo do PT? Lula. Lula e sua fala fácil; Lula e seu discurso freqüentemente irresponsável; Lula e suas soluções simples e erradas para problemas complexos; Lula e sua crença de que, de fato, como disse nesta semana, é ungido pela vontade divina. A exemplo do que fez durante todo o ano de 2002 (a rigor, a exemplo do que faz desde sempre), desandou a fazer acusações ao léu, falando o que lhe dá na telha. Só que é agora presidente da República.
Mas é um presidente candidato à reeleição. Pensem bem, leitores: Lula sem as bravatas, aquelas que ele mesmo admitiu, é o quê? Nada! Não existe. O que funciona no seu governo é continuidade do que herdou. Mas também, é verdade, mudou muita coisa, como se viu na Saúde: e mais gente começou a morrer. Mudou também na Reforma Agrária: os cadáveres se amontoam. Mudou também na educação: estamos prestes a ver a universidade brasileira, já capenga, destruída em definitivo. Lula precisa, em suma, lançar acusações ao vento para se justificar.
E o faz, é preciso dizer, de uma forma covarde, pusilânime. O “companheiro” que lhe teria feito a denúncia não tem nome; os acusados não têm nome; as acusações não são definidas. Entendam bem: o PT não quer mandar esta ou aquela pessoa para o banco dos réus — até porque, como sempre, o provável é que não existam nem crime nem criminosos. O PT quer mandar para o banco dos réus a oposição. Como é um partido com DNA totalitário — e Lula é seu emblema e seu maior beneficiário —, investe no racha da sociedade, no confronto. Esquece, no entanto, que o país tem instituições por enquanto sólidas, aquelas que eles, petistas, não conseguiram ainda conspurcar. E, nessa condição, reagem.
O que quero dizer é que o estilo chavista de Lula é deliberado, pensado, organizado, decidido. A decisão de satanizar a oposição não foi um rompante, não foi um deslize. O presidente, desta vez, só não cuidou direito do texto e foi muito além do que seria razoável e aceitável dizer. Na sua pantomima, como um ator que acredita que de fato é Lula, cometeu o chamado overacting, deixou que sua representação evoluísse para o histrionismo. E, agora, ou a República se degrada ou ele se explica.
Volto ao escorpião. Até havia pouco, muita gente boa e com acesso ao bom pensamento estava se deixando seduzir pela suposta conversão petista. Conversão nada! O Lula que se viu na quinta-feira, a deitar fora ligeirezas e falas irresponsáveis, era uma antecipação de um eventual Lula vitorioso em 2006. É para isso que caminhamos. Os demônios da hora foram aqueles escolhidos. Podem ser outros. Pode ser qualquer um que, por alguma razão, o partido decida que precisa ir para a fogueira para atender a seus interesses táticos ou estratégicos.
E essa é uma das grandes diferenças entre um partido democrático e outro que usa a democracia apenas como instrumento para chegar ao poder — e, se preciso, solapá-la. Partidos democráticos não põem em risco a reputação das instituições ou do cargo que ocupam apenas para manter o poder ou conquista-lo. Ao contrário: democratas sabem que o respeito às regras é a sua própria garantia de sobrevivência. A exemplo do que fez FHC com o próprio Lula, transmitindo-lhe o cargo numa transição exemplar e reiterando que o outro, a despeito de sua biografia de sandices e bravatas, não faria nenhuma besteira. Falavam em nome do Brasil, não do PSDB.
Ocorre que Lula consegue ser ainda menor do que o próprio PT, que, vá lá, ao menos na origem, tem raízes no movimento social. Lula sempre foi o candidato, finalmente bem-sucedido, a burguês do capital alheio, supondo — e contando, para tanto, com o encanto basbaque de meia dúzia de tolos politicamente corretos — que tudo o que não estudou (porque não quis) e tudo o que ignora, porque tem preguiça de ler, lhe seria transmitido pelo Espírito Santo.
Quem apostou que o escorpião tinha virado borboleta começa agora a ver que não é bem assim. Na verdade, está-se criando um bicho exótico e bem perigoso: um escorpião com asas. Que têm de ser cortadas a tempo.
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Escrito por Aleixo às 16h26
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