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Mais uma com cara de Kim Il-Sung - BARBARA GANCIA
Dois anos e dois meses de PT no poder e a gente já começa a se fartar com a pobreza do repertório. Aprendemos que toda a criatividade do governo para solucionar problemas foi canalizada para o aumento de impostos e para o inchaço da máquina administrativa, que eleva sobremaneira os gastos públicos. Todo o resto, o cidadão mais atento já percebeu, é amadorismo, inabilidade ou firula na forma de discursos improvisados e de programas que não saem do papel. Sendo que os que saem, são em geral réplicas desastradas de ações preexistentes. Aprendemos também que quando o governo Lula apresenta alguma proposta dizendo que vai "normatizar" ou "regulamentar" qualquer atividade, devemos estar preparados para mais uma demonstração de autoritarismo que se manifestará na tentativa sinistra de impor a censura prévia. Os exemplos são tão abundantes que não caberiam neste exíguo espaço. Na semana passada, o governo choveu no molhado novamente. Desta vez, baixando uma portaria que exige que os dados de pesquisas estruturais obtidos pelo IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística) só possam ser divulgados 48 horas depois de passar pelo crivo do Ministério do Planejamento. Ora, ora. Vivemos em um país que, no período do regime militar, viu um presidente do Banco Central ser dono de uma corretora de investimentos. Mais recentemente, vimos um senador da República exercer seus poderes premonitórios ao sacar todo o seu dinheiro da conta de um banco que, dias depois, viria a sofrer intervenção. Com exemplos dessa laia, que segurança podemos ter de que os dados fornecidos pelo IBGE estarão protegidos nas 48 horas em que apenas os membros do governo terão acesso a eles? E como podemos estar certos de que o governo não irá manipular números que lhe são fornecidos com 48 horas de exclusividade? Há cerca de um mês, o presidente que quer ser lembrado por combater a fome contestou dados do IBGE que apontam a obesidade como principal problema de nutrição do país. No caso de haver alguma relação entre o questionamento do presidente e a portaria a la Kim Il-Sung restringindo as informações do IBGE, é o caso de perguntar se, em vez de tomar mais uma decisão que contraria direitos expressos na Constituição, não teria sido preferível explicar à população que a obesidade tapuia identificada pelo IBGE não é produto da riqueza, mas deriva das mesmas limitações que geram a fome.
QUALQUER NOTA
Muito barulho Basta ver o tanto de manobras desonestas que constam do currículo de Janet Arvizo, mãe do menino supostamente molestado por Michael Jackson, para verificar que o processo contra o cantor vai acabar fazendo água. E vamos e venhamos: na Califórnia, por acaso, é ilegal manter revistas pornográficas em casa?
É o Tchan! Quer dizer que a dra. Havanir se bandeou para o PSDB e deixou o Enéas na mão? Como é que o Prona vai se virar sem sua superstar? Algo me diz que o dr. Enéas terá de realizar um concurso nacional para descobrir a nova morena do Tchan.
Escrito por Aleixo às 11h01
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Reagir é preciso - CLÓVIS ROSSI
Do jornalista William Bonner, ao explicar porque reagiu a assaltantes que atacaram sua casa no Rio de Janeiro: "Passados cerca de 45 minutos sob a mira de uma pistola, desesperado com o que poderia ocorrer com minha família, contrariei todas as recomendações de autoridades policiais -em quem verdadeiramente sempre acreditei". Títulos de ontem dos tablóides britânicos, com o exagero habitual: "You can kill a burglar" (você pode matar um ladrão). O título refere-se a novas orientações do governo britânico sobre como lidar com invasores de sua casa. No limite, está autorizado matá-los, mas há o risco de processo judicial se for usada "força muito excessiva". Nas recomendações sobre não reagir, que é o padrão no Brasil, e nas novas orientações da polícia britânica está o abismo entre a civilização e a barbárie. No Brasil, aceitamos a barbárie, na forma de nunca reagir mesmo quando você está dentro da lei e corre risco, assim como sua família. No fundo, é a confissão das autoridades de que são incapazes de conter a criminalidade, e o melhor que podem fazer é evitar mais mortes em troca do abandono do direito de legítima defesa. Ou, posto de outra forma, aceita-se a lei da selva. No caso inglês, as novas orientações não querem dizer que, antes, havia ordens para não reagir. Trata-se de avisar o cidadão que, se reagir e machucar ou matar o invasor, não será perseguido judicialmente, desde que não empregue força excessiva nem busque vingança (matar o ladrão depois que ele já fugiu, aí é vingança e dá processo). Não estou recomendando a reação contra assaltantes armados. Ela é apenas o último elo de uma cultura de respeito à lei acima de tudo. Quando a própria autoridade recomenda ceder ao crime, tem-se a diferença entre um país organizado e a baderna.
Escrito por Aleixo às 10h59
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A paixão do presidente - João Mellão Neto
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Anos atrás, um grande empresário, amigo meu, me contou o episódio a seguir. Ele pretendia adquirir um avião particular para facilitar os seus deslocamentos no Brasil e no Exterior. Como dispunha do capital necessário, procurou o lendário comandante Rolim, que, além da TAM, possuía uma empresa de venda e manutenção de jatos executivos.
Rolim encarregou-se de desvanecer os seus sonhos, com os seguintes argumentos: "Se o seu caso for de paixão (a palavra que ele usou é outra...), não se discute, porque paixão não tem preço. Mas, se você pretende conhecer a viabilidade financeira de possuir um jato, eu tenho de alertá-lo que, se seu uso for de menos de 45 horas por mês, sai mais em conta fretar aviões do que comprá-los."
"Como assim?"
"O cálculo é complexo, mas vamos lá. Uma aeronave, mesmo parada, tem custos fixos mensais gigantescos. Em primeiro lugar, você tem de calcular o custo de oportunidade do avião. Veja a quantia que você vai pagar para adquiri-lo e faça as contas de quanto esse dinheiro renderia caso fosse aplicado no mercado financeiro. Esses juros que deixará de ganhar na aplicação têm de ser computados como parte do custo fixo mensal do aparelho. Um avião, mesmo sem uso nenhum, já tem de início esse custo: pelo menos 1% do seu valor total, por mês."
"Isso dá uma enormidade de dinheiro!"
"Mas não pára por aí. Você tem de levar em conta a depreciação do valor da aeronave, que é de mais de 10% ao ano. Isso dá quase 1% de custo mensal. Já são 2% do valor do avião a cada mês. Esses são apenas os custos financeiros."
"É uma fortuna!"
"Pois é. Agora você tem de calcular os custos de manutenção. Um avião tem, por lei, de passar por uma revisão geral a cada seis meses. Isso tem um preço e não é nada barato. Além da revisão obrigatória, use ou não use o aparelho, você tem de arcar com os salários mensais de, no mínimo, dois pilotos e eles cobram caro. Afora isso, há o custo de estadia do avião em terra. Mais uma fortuna. Somando-se a estes números outros custos em que necessariamente se incorre, como seguro, impostos, manutenção e checagem diária dos aparelhos de bordo e vôos semanais apenas para manter o aparelho em perfeitas condições de uso, você chegará próximo a 3% ao mês do valor do investimento, apenas para manter a sua aeronave, mesmo sem usá-la."
O empresário já estava ficando descorçoado. Ainda assim, arriscou um último argumento: "Mesmo assim, se eu levar em conta que a hora de vôo de um avião fretado custa quatro vezes mais do que eu gasto em combustível voando em aeronave própria, no fim das contas deve valer a pena."
"Os custos de uma hora de vôo não se resumem ao combustível gasto. Há um desgaste normal do aparelho quando ele é usado. A cada cem horas de vôo há que trocar inúmeras peças. A cada mil horas, além da revisão semestral, você terá de proceder a uma outra revisão geral. Como eu disse, isso depende de quantas horas mensais você voará. Pelos meus cálculos, a posse de um avião só se justifica se forem voadas, no mínimo, 45 horas mensais. Isso dá uma média de uma hora e meia para cada dia do mês. Uma empresa aérea, para dar algum lucro, tem de manter os seus aviões permanentemente no ar. Avião no chão é prejuízo na certa. É exatamente por isso que a maioria dos proprietários de jatos aproveita as horas ociosas de seus aparelhos para fazer táxi aéreo..."
O empresário citado, após ouvir essa aula do comandante Rolim, de imediato desistiu de seu sonho do avião próprio. Voa até hoje em aviões de carreira e, quando está com pressa, trata de fretar um jatinho. Há outros, é claro, que preferem, mesmo assim, comprar um avião. Mas isso já é caso de paixão. E, como dizia o Rolim, paixão não tem preço...
Essa história é oportuna porque, ainda na semana passada, chegou ao Brasil o AeroLula, um avião de quase US$ 60 milhões, para uso exclusivo da Presidência da República. As autoridades da Aeronáutica bem que tentaram convencer a opinião pública de que o negócio é vantajoso. Seu principal argumento foi o de que o gasto em combustível do novo avião, por hora, é de um quarto do custo de um avião fretado. Como se pode ver, a alegação não procede. Por mais que queira, Lula não conseguirá voar 45 horas por mês e, como não pode ceder o avião para táxi aéreo, a aquisição está longe de ser lucrativa.
Eu, de minha parte, não tenho nada contra o fato de a Presidência da República possuir um avião moderno para seus deslocamentos. O ridículo, no caso, é a patética tentativa de convencer a opinião pública de que a aquisição da aeronave é economicamente vantajosa.
O episódio adquire ares ainda mais absurdos quando nos recordamos de que, logo após a posse de Lula, o governo petista anunciou o cancelamento da licitação para compra de aviões militares - estes, sim, imprescindíveis -, sob o para lá de demagógico argumento de que o montante envolvido seria mais bem aplicado no programa de combate à fome.
Dois anos se passaram e o que se constatou foi que o dinheiro para a compra dos caças não seria despendido de imediato, e sim ao longo de vários anos; não havia, como ainda não há, um programa efetivo de combate à fome; e, segundo pesquisa inquestionável do IBGE, simplesmente não existem, no Brasil, as dezenas de milhões de famintos que serviram de argumento para o PT se eleger.
Quanto ao AeroLula, bem, paixão realmente não se discute...
João Mellão Neto, jornalista, foi deputado federal, secretário e ministro de Estado. E-mail: j.mellao@uol.com.br |
Escrito por Aleixo às 15h14
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