De gaúcho a brasileiro - (*) Janer Cristaldo
03/01/2005
O Rio Grande do Sul nunca foi bem visto no eixo Rio/São Paulo, talvez pelo seu alto índice cultural e, hoje, por ser um Estado majoritariamente branco. Graças aos agitprops negros americanos, está tomando corpo no País a idéia de que o Brasil, antes de ser europeu, tem suas raízes na África. Ora, um Estado que tem como responsáveis por seu desenvolvimento os branquelas alemães e italianos, fundamentalmente, não é bem visto num Brasil que passa a pretender-se negro. O Rio Grande do Sul, aqui no eixo, tem fama de racista. Esquecem os intelectuais do centro que foi, até hoje, o único Estado do país a eleger um governador negro.Gaúcho não é brasileiro. Só passa a ser brasileiro quando reconhecido no Exterior.
Há algum tempo, relatei um episódio significativo ocorrido numa redação paulistana. O enxadrista Mequinho, cidadão de Santa Cruz do Sul, havia sido derrotado em uma final de campeonato. O redator titulou: CAMPEÃO BRASILEIRO É DERROTADO EM FINAL DE XADREZ. O editor trocou brasileiro por gaúcho. Mequinho era campeão brasileiro quando ganhava. Quando perdia, era gaúcho.
No inicío do mês passado, o Estadão online nos brindou com uma manchete insólita:
SAI NA ALEMANHA LIVRO SOBRE PADRE E CIENTISTA BRASILEIR0
A notícia vem de Londres, o que em si já é mais prestigioso. Na linha fina, lemos:
A dramática e praticamente desconhecida história do cientista Roberto Landell de Moura (1861-1928) foi escrita pelo jornalista Hamilton Almeida.
O padre gaúcho, nascido em Porto Alegre, de repente virou brasileiro. Ocorre que a editora Debras Verlag, da cidade de Konstanz, sul da Alemanha, está lançando o livro Pater und Wissenschaftler (Padre e Cientista), de autoria do jornalista paulista Hamilton Almeida, que relata a dramática e praticamente desconhecida história do cientista Roberto Landell de Moura (1861-1928).
Segundo o autor, o padre Landell foi precursor do rádio, da televisão e do teletipo, entre outras descobertas importantes. No final do século 19, foi ele o primeiro a transmitir a voz humana à distância através de uma onda eletromagnética, em experiência realizada na cidade de São Paulo, entre a Avenida Paulista e o alto de Santana. Em 1894, Landell uma transmissão experimental com seu rádio, na Avenida Paulista, cujos sinais foram captados no bairro de Santana, sete anos antes de Marconi ser consagrado o inventor desse importante instrumento de comunicação, com a chancela do governo italiano. No que há um equívoco, segundo Almeida: Marconi inventou o telégrafo sem fio e não o rádio tal como o conhecemos.
A confiarmos na Enciclopédia Britannica, não restam dúvidas sobre o pioneirismo de Landell de Moura. Ao falar de Marconi, diz a enciclopédia: “Físico italiano e inventor do bem sucedido sistema de rádio-telegrafia, (1896)”. Em 1909, dividiu o prêmio Nobel de Física, com o físico alemão Ferdinand Braun. Em 1894, quando o padre gaúcho faz uma transmissão radiofônica em São Paulo, o único feito de Marconi fora fazer uma campainha tocar enviando sinais de rádio através do quarto onde fazia a experiência. Só oito anos depois, isto é, em 1902, conseguiu enviar mensagens via rádio sobre o Atlântico a uma distância de 4800 km.
Mesmo tendo patenteado os inventos no Brasil e nos EUA, Landell não foi reconhecido em sua época, diz o autor. "Ele quis unir a religião à ciência e acabou acusado de ter pacto com o diabo", explica Almeida. "Os seus aparelhos chegaram a ser destruídos e foi forçado a abandonar os estudos científicos”.
Quando pergunto, aqui em São Paulo – à guisa de provocação – quem inventou o rádio, a resposta é automática: Marconi. O mesmo ocorre na Europa. Se afirmo, aqui no Brasil, que foi um gaúcho, meu interlocutor me olha com piedade e pensa: mais uma bravata de gaúchos. Se faço esta afirmação no Exterior, a resposta é outra: gaúchos? Que é isso?
Com a edição do livro na Alemanha, Landell de Moura, de visionário gaúcho, passará certamente a cientista brasileiro. Este desprezo do eixo em relação ao Rio Grande do Sul vem de longe. Qorpo Santo, teatrólogo que morreu nos estertores do século XIX, jamais conseguiu encenar uma peça em Porto Alegre. O que dele nos restou foram apenas textos impressos. Tido como louco, foi inclusive internado em hospício. Um século depois de sua morte, tendo suas primeiras peças encenadas, foi considerado por um crítico carioca, Yan Michalski, como precursor absoluto do teatro do absurdo. Rio dixit. Virou, do dia pra noite, dramaturgo nacional. O irônico em tudo isso, é que se os europeus não tivessem criado esta grife, o teatro do absurdo, Qorpo Santo continuaria até hoje com a pecha de maluco.
Há ainda muita coisa a ser revisada na História. Se Marx já está morto e sepultado, falta ainda enterrar Freud, o que será feito em breve. E o próximo ano vai dar muito o que falar na história do E=MC2, que antes de ser descoberta de Einstein, seria de Poincaré.
Sabe-se, hoje, que o gaúcho Luís Carlos Prestes foi o inspirador da Grande Marcha na China, que levou Mao Tse Tung ao poder. Mao estava em Moscou, quando Prestes lá chegou como herói do Terceiro Mundo. Herói por vontade da propaganda moscovita, é verdade, pois a fama toda do tenente gaúcho vinha de suas “gloriosas retiradas” . O jovem Mao gostou da idéia e a levou para a China. Para desgraça dos chins, chegou ao poder. Saldo da marcha inspirada por Prestes: 65 milhões de mortos.
Os paulistas, em suas pretensões de poder hegemônico cultural do País e orgulhosos dos grandes massacres inspirados no marxismo, reivindicaram para a si a criação do Partido Comunista no Brasil, em 1922. Ora, em 1918, um ano antes da criação da primeira célula comunista em Paris, Santana do Livramento já instalara a sua.
Os gaúchos, caríssimos, sempre foram pioneiros. Até mesmo na estupidez.
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(*) Cristaldo é jornalista, escritor e tradutor e vive em São Paulo. |
Escrito por Aleixo às 16h16
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