Ler e pensar


Bush é mesmo tão burro assim?

BARBARA GANCIA

Bush é mesmo tão burro assim?

A cabo de receber o quarto DVD da série "Bushisms", de autoria do celebrado colunista da revista "Slate" Jacob Weisberg, em colaboração com o humorista e aspirante a político Al Franken e o cartunista Garry Trudeau, autor da série "Doonesbury".
Bem-humorado para as negas dele, o documentário "Bushisms" apresenta um extenso desfile de tropeços verbais cometidos por George W. Bush e tenta dar a falsa noção de que o presidente norte-americano não passa de uma mula de gravata. Bush seria burro por não saber se expressar.
Mas, vem cá: George W. Bush não é disléxico?
Digamos que, em vez de sofrer de dislexia, uma desordem que traz enormes dificuldades no aprendizado da leitura, dos números e da fala, Bush tivesse sido acometido na infância por poliomielite. Será que os liberais fariam um documentário mostrando uma infinidade de cenas de Bush puxando a perna? Algo me diz que não.
O assessor de segurança Richard A. Clarke, que deixou a Casa Branca para escrever "Against All Enemies", detonando o governo, diz no livro que, em seu contato com o presidente Bush, "ficou claro que as críticas de que ele seria um riquinho burro e preguiçoso são algo imprecisas".
Perguntado por David Letterman sobre a inteligência de Bush, o jornalista Bob Woodward (leia-se Watergate), que já escreveu dois livros sobre o atual presidente, disse com todas as letras que, de burro, Bush não tem nada.
Bronco, na minha modestíssima opinião, é quem desconhece distúrbios que atingem milhões de pessoas e são reconhecidos pela Organização Mundial de Saúde, como a dislexia e o alcoolismo.
Em outro documentário, "Farenheit 9/11", de Michael Moore, o presidente é ridicularizado por ter permanecido imóvel ao ouvir a notícia de que aviões haviam colidido contra as Torres Gêmeas. Ora, ora. Bush é filho de um sujeito que ocupou a vice-presidência dos EUA por oito anos e que, antes disso, havia sido diretor da CIA e embaixador norte-americano na China. Será que o presidente não sabe nada sobre os procedimentos do Serviço Secreto?
Embora seja até bem engraçada a versão de que ele não queria perder o final da história da ovelhinha, é óbvio que Bush ficou quieto esperando para ver o que o Serviço Secreto ia decidir fazer com ele.
Enquanto os liberais usarem de chavões para lá de levianos para tentar cativar o público, pode ter certeza, os democratas vão continuar a perder uma eleição atrás da outra.

QUALQUER NOTA

Espírito 1
O espírito natalino sensibiliza. Mas será que a prefeita Marta precisava mesmo choramingar ao explicar que pagou sua passagem de primeira classe para Paris do próprio bolso?

Espírito 2
O Senado aprovou a MP que dá privilégios de ministro ao presidente do Banco Central. E, agora, começam a surgir vozes de que, prevendo dificuldades para se reeleger no Amapá, José Sarney estaria articulando com petistas a criação do Estado do Planalto Central, reunindo cidades-satélites do DF, de Goiás e Minas. Governar com "espírito republicano" é outra coisa!

E-mail - barbara@uol.com.br
www.uol.com.br/barbaragancia



Escrito por Alexandre Aleixo Pereira às 14h29
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Síndrome do Piu-Piu

Olavo de Carvalho
O Globo, 4 de dezembro de 2004

 

O diálogo entre Christovam Buarque e Fernando Henrique Cardoso em Providence, EUA, gravado pelo próprio Buarque e publicado pela repórter Lydia Medeiros em http://oglobo.globo.com/jornal /pais/147246986.asp, é um documento de excepcional importância para a compreensão do que vem acontecendo e do que está para acontecer neste país. Seu conteúdo é de uma clareza estonteante. Nele os dois líderes admitem que seus partidos têm os mesmos objetivos, a mesma ideologia e até a mesma estratégia, não havendo entre eles outra disputa senão a do poder puro e simples, a da primazia no comando de um processo que em ambos os casos vai na mesma direção. Anos atrás, escrevi que a partilha do espaço eleitoral entre PT e PSDB correspondia à “estratégia das tesouras” preconizada por Lênin: à absorção de todas as correntes numa disputa insubstantiva, de modo que a ideologia comum, protegida por trás de um simulacro verossímil de concorrência democrática, ficasse a salvo de qualquer ataque mais sério. Para os que não são capazes de tirar conclusões dos fatos e só se convencem diante de uma confissão explícita, aí está o que pediam. Se depois disso ainda têm dúvidas, é porque são almas vacilantes, debilitadas por incertezas hamletianas insanáveis, ou – para usar de uma referência cultural mais acessível ao seu espírito – acometidas de Síndrome do Piu-Piu: “Será que eu vi um gatinho?” Nada podemos fazer por elas. Mas, para o leitor sem medo de perceber o óbvio, Cardoso e Buarque fornecem ainda algumas informações suplementares sobre a macro-estratégia petista-tucana:

1. Ela visa essencialmente a fazer do Estado o pólo agente, da sociedade a matéria-prima a ser transformada pela intervenção estatal através de “choques sociais”.

2. Seu modo de ação básico é o investimento estatal maciço, sustentado por impostos altíssimos (nunca menos de 30 por cento do PIB).

3. Todas as forças sociais devem ser persuadidas a transformar-se em instrumentos dóceis da ação do Estado, para que a mudança possa ser efetuada sem ruptura violenta.

4. Cardoso e Buarque estão persuadidos de que a mídia se prestará a esse papel sem a menor resistência.

5. As dificuldades podem vir, isto sim, da Justiça. Insistindo em preservar direitos legais consagrados, juízes e procuradores se tornaram um obstáculo ao advento do Brasil socialista. O que os dois mentores da transição pretendem fazer para derrubar esse obstáculo é detalhe que não foi discutido na conversação.

Alguns dados que também não constam do documento devem ser acrescentados para a sua melhor compreensão:

1. PT e PSDB originam-se ambos da esquerda uspiana dos anos 70, fortemente impregnada das idéias de Antonio Gramsci. Cardoso considera-se, não sem razão, mais hábil na aplicação da estratégia gramsciana do que seus concorrentes do PT.

2. As conexões dos dois partidos no plano internacional são as mesmas: ambos estão perfeitamente integrados nos planos do “globalismo progressista” da ONU, da Comunidade Européia e das grandes fortunas privadas (Rockefeller, Ford, MacArthur, Soros) que subsidiam a esquerda universal como instrumento de implantação de um governo global. PT e PSDB são as duas pontas locais de um triângulo cujo vértice está colocado muito alto na hierarquia do poder mundial. Para o leitor fazer uma idéia dessa altitude, basta-lhe saber que o Cebri, Centro Brasileiro de Relações Internacionais, braço nacional do CFR (Council of Foreign Relations), o principal think tank da estratégia globalista, tem entre seus conselheiros o sr. Marco Aurélio Garcia, um dos mais ativos membros do Foro de São Paulo, e na presidência o próprio Cardoso.

3. Quando se fala em “PT”, é preciso não compreender um partido isolado, mas as oitenta e tantas organizações que compõem o Foro de São Paulo. Todo esse conjunto está integrado no esquema que, desde os centros de comando do neo-imperialismo burocrático, decide os rumos da política brasileira.

Mas sempre haverá quem prefira dar a esse quadro os nomes eufemísticos de “pluralismo” e “transparência” – uns porque sofrem da Síndrome do Piu-Piu, outros porque são o gatinho em pessoa.



Escrito por Aleixo às 16h28
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‘A luta de PT e PSDB é política, não ideológica’


Lydia Medeiros

Foi uma longa conversa para reinterpretar o passado, analisar o presente e pensar o futuro. Com um gravador em punho, o senador petista Cristovam Buarque (DF), ex-ministro da Educação, resolveu registrar a troca de impressões com o ex-presidente tucano Fernando Henrique Cardoso, quando eles se reuniram, um mês atrás, em Providence, nos Estados Unidos. O diálogo, cedido ao GLOBO por Cristovam, somou 50 páginas impressas, das quais foram extraídos alguns trechos. Entrevistador e entrevistado revelam identidades. Ambos defendem um choque social e acreditam que, um dia, apesar das farpas de um lado e do outro, PT e PSDB marcharão juntos na política brasileira.

CRISTOVAM BUARQUE: A sua eleição e a do Lula não são fatos inesperados? A esquerda chegar ao poder?

FERNANDO HENRIQUE CARDOSO: Totalmente.

CRISTOVAM: E não é uma surpresa que tenhamos chegado ao poder sem uma proposta nova para o povo? Chegamos rebocados pela direita.

FERNANDO HENRIQUE: Surpresa não é chegar, é chegar pelas duas vias... (risos)

CRISTOVAM: Nossas brigas (PT e PSDB) não podem impossibilitar um trabalho?

FERNANDO HENRIQUE: Não discutimos nem disputamos ideologia. É poder, é quem comanda. Minha idéia para o Brasil é a seguinte: você tem uma massa atrasada no país, e partidos que representam esse atraso, clientelismo. Os dois partidos que têm capacidade de liderança para mudar isso são o PT e o PSDB. Em aliança com outros partidos. No fundo, disputamos quem é que comanda o atraso. O risco é quando o atraso se comanda. É um pouco o negócio do pacto com o diabo, do Fausto, não é? Você pode perder a sua alma nesse processo, porque o atraso pode te comandar. O risco neste momento é de vocês, do PT. De comandar um pouco o atraso e imprimir os outros nessa direção.

CRISTOVAM: Ainda é possível uma aliança PT-PSDB?

FERNANDO HENRIQUE: Acho que sim. Porque a luta é política, não é ideológica.

CRISTOVAM: Nós, do PT, fomos cooptados, ficamos lúcidos, amedrontados ou oportunistas? A nossa mudança veio de qual destes fatos?

FERNANDO HENRIQUE: Veio de tudo isso. Na campanha, é natural um certo oportunismo. Com jogada de marketing, você cria um mito, conta uma história. O meu mito era fácil, era o real, moeda, estabilidade. O Lula era ele próprio, a vida dele. Eu não estava mentindo, realmente tinha feito o real. O Lula também não, representa a ascensão de uma camada. Mas uma coisa é campanha e outra é governo. No governo, não basta paz e amor.

CRISTOVAM: Não está na hora de a gente dar um choque social no Brasil?

FERNANDO HENRIQUE. Se não fizermos alguma coisa rápido, haverá danos à democracia. Se o resultado vai muito devagar, é uma tragédia. Se não anda, pior ainda. Andar para trás é inaceitável. Eu resumiria dizendo: mais investimento em infra-estrutura e um choque social.

CRISTOVAM: Com uma carga fiscal de mais de 30% do PIB já dá para fazer...

FERNANDO HENRIQUE: Aumentou muito a arrecadação. Não entendi porque houve um aumento do superávit primário. Sou doutor nisso. Desde 1999 estou lutando com o FMI. A idéia do Fundo é sempre um pouco mais alto. Porque com o superávit atual, de 4,5%, você não paga nem os juros. Mas se for de 5%, também não vai pagar. Não precisa exagerar no superávit primário. Eu até posso dizer isso. O Lula é que não pode porque é o presidente. Os mercados caem no dia seguinte, é verdade.

CRISTOVAM: Mas para dar esse choque, não é preciso ter um compromisso (a palavra pacto não é boa)?

FERNANDO HENRIQUE: Não devemos falar de pacto porque dá má sorte. Digamos uma convergência. Tem de ser uma coisa suprapartidária. A sociedade tem de comprar a idéia. E tem que pegar gente influente na mídia, porque hoje não existe nada sem mídia. Na política atual, parafraseando Descartes (“Penso, logo existo”), é “estou na TV, logo existo”. Se você não é virtual, você não existe.

CRISTOVAM: A imprensa a gente até traz, agora a Justiça é que difícil trazer...

FERNANDO HENRIQUE: As classes dirigentes, dominantes, e mais do que as classes, as mentalidades dominantes e as culturas tradicionais estão encasteladas na Justiça.

CRISTOVAM: Em novembro de 1998, acompanhei o Lula para visitá-lo. Quando o senhor abriu a porta do apartamento residencial no Alvorada, disse: “Lula, venha conhecer a casa onde você um dia vai morar”. Foi generosidade ou previsão?

FERNANDO HENRIQUE: Não creio que tenha sido uma previsão, mas sempre achei uma possibilidade. E também um gesto de simpatia. Eu disse ao Lula naquele dia: “Temos uma relação de amizade há tantos anos, não tem cabimento que o chefe do governo não possa falar com o chefe da oposição”. Era uma época muito difícil para o Brasil. Eu disse lá, não sei se você se lembra: “Algum dia nós podemos ter de estar juntos”. Eu pensava numa crise. E disse ao Lula: “Não quero nada de você. Só conversar. É para você ter realmente essa noção de que num país, você não pode alienar uma força”. Lula conversou comigo no dia da posse. E foi bonita aquela posse... Na hora de ir embora, o Lula levou a mim e a Ruth até o elevador. E aí ele grudou o rosto em mim, chorando. E disse: “Você deixa aqui um amigo”. Foi sincero, não é?

CRISTOVAM: Você é adversário dele?

FERNANDO HENRIQUE: Eleitoralmente, sim. Mas tem que estar perto. Tem que saber o que o outro pensa.



Escrito por Aleixo às 16h28
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Indenizações Injustas - Final

Augusto Nunes - No mínimo

 Por que não fui presidente do Supremo (final)

04.12.2004 |  Contei no capítulo anterior que, em agosto de 1969, passei quatro dias preso em dependências da Aeronáutica no Rio. Os sherloques dos ares me interrogaram horas a fio, prencheram uma ficha informando que eu era comunista e me mandaram andar. Em dezembro, o diretor da Faculdade Nacional de Direito recomendou que tratasse da transferência para outras paragens. Se tentasse ficar por lá, zanzando pelos corredores com aquela pose de diretor do Caco-Livre, seria expulso. O pedido de matrícula só foi aceito pelo Instituto Mackenzie, em São Paulo. O bunker ultradireitista aceitava o que viesse. Desde que a mensalidade fosse paga sem atraso.

Nem completei o 3º ano. Ainda no primeiro semestre, deixei o curso e desisti de vez do diploma de bacharel. Só por isso não virei advogado, juiz, desembargador, ministro do Supremo Tribunal Federal e, fecho glorioso para tal trajetória, presidente da Corte Maior. Resumo da ópera: não fui presidente do STF por culpa da ditadura.

No último parágrafo da primeira parte, confessei-me excitado pelo tamanho dos reparos financeiros e indenizações (livres de taxas e descontos). Revelei a tentação de recorrer à turma encarregada de recompensar quem foi prejudicado pelo regime militar. Pois hoje acordei convencido de que a causa é muito pertinente. Quero meu salário de ministro. Quero a reparação retroativa, em dinheiro vivo e pagamento à vista. Não aceito títulos do Tesouro Nacional.

Já comecei a pensar no material necessário a sustentar o pleito justíssimo. Parecem-me especialmente relevantes certos depoimentos de quem me conheceu desde o berço. Meu pai, por exemplo, vivia dizendo que eu daria um grande advogado. (A frase era antecedida por uma introdução invariável: poucas vezes ele vira alguém defender rematadas bobagens com a convicção veemente exibida por aquele filho metido a comunista. Mas esse preâmbulo é dispensável. Só a conclusão interessa à papelada.)

Minha mãe decidiu que o filho do meio nascera para julgar grandes questões (e grandes questões são coisa para o Supremo) depois de saber de minha participação, ainda calouro da Nacional de Direito, num júri simulado sobre o Tribunal de Nuremberg. Contei a dona Biloca que, entre 60 alunos, fora um dos dois escolhidos para bancar o advogado. Os demais estudantes formariam o júri incumbido de dissipar a dúvida histórica contida na pergunta do professor Afonso Arinos: a corte que condenou os chefes nazistas derrotados na Segunda Guerra Mundial se apoiara em princípios jurídicos consistentes ou fora apenas um casuísmo forjado pelos vencedores?

Escalado para demolir o Tribunal de Nuremberg, perdi de goleada. Em casa só contei que, apesar da missão tão indigesta, fizera bonito. Omiti o fato de que, quando os jurados se manifestaram erguendo o braço, nem foi preciso fazer contagens para constatar quem vencera. “Não ganhei por pouco”, desconversei. Foi então que minha mãe disse a grande frase: “Se criar juízo, você vai ser presidente do Supremo”.

Decidi cortar as três palavras antes da vírgula e só usar as restantes na papelada a encaminhar à comissão que monitora os movimentos dos trens pagadores. Os integrantes do organismo saberão comover-se com o depoimento de dona Biloca. Todos têm agido com generosidade de mãe.

Espero ganhar dos amigos a toga que pretendo vestir no jantar da vitória. Garanto a comida. A bebida fica por conta de cada um. Também tenho família para cuidar.



Escrito por Aleixo às 08h40
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Indenizações Injustas

Augusto Nunes - No mínimo

 Por que não fui presidente do Supremo (I)

29.11.2004 |  Fiquei preso quatro dias em agosto de 1969. Num começo de tarde, empunhava o copo de chope no bar da esquina, ao lado da Faculdade Nacional de Direito, quando se aproximou da mesa a curta procissão de gente mal-encarada. Policiais, e fantasiados de policial brasileiro: o paletó é comprido demais e, abotoado, parece que vai explodir. Nossos james bonds se acham sempre mais altos e menos gordos do que efetivamente são.

Buscavam minha namorada, que um mês antes tivera decretada a prisão preventiva. A fantasiosa informação de que a ordem fora revogada provocou o reencontro desastrado. Ao saberem que eu fazia parte da diretoria do Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, o velho e brigão Caco-Livre, os captores resolveram embarcar o casal em dois carros com placas frias.

Separados, seguimos para o prédio soturno que a PM ocupava na Rua Frei Caneca, no centrão do Rio. De madrugada, fui transferido para dependências da Aeronáutica ao lado do aeroporto Santos Dumont. Ali fiquei dois dias. Reencontrei minha namorada na Base Aérea do Galeão, terceira e última estação do curto calvário. (Eu a veria pela última vez dois meses depois. Ela me informou que cairia na clandestinidade e iria à luta. Julguei mais sensato prosseguir na resistência democrática e nossos caminhos se separaram. Mas essa é outra história. Voltemos a agosto de 1969.)

Prisões de militantes do movimento estudantil eram então rotineiras, poucos se livrariam da experiência. Ninguém se achava herói por isso, sobretudo se não ficava muitas horas exposto às brutalidades infligidas a tantos. Naquele inverno feroz, o Brasil dos militares já começava a meter medo. Multiplicavam-se histórias apavorantes dando conta de pesadelos nos porões da ditadura. Tive sorte.

Fiquei preso só quatro dias, e foi cana leve: escapei de torturas físicas, não levei pancada de deixar hematoma. Os donos do mundo ficaram nos abusos de praxe. Quase não me deixaram dormir. Viviam me buscando para interrogatórios longos, redundantes, freqüentemente insensatos. Duravam sete, oito horas, que suportava sentado numa cadeira, mãos algemadas às costas. Queriam saber quem chefiava a organização que me recrutara. Repetia que não fazia parte de nenhum grupo, era só um 3º vice-presidente do Caco, paulista e caipira, perdido no Rio aos 19 anos. Nada confessei. Até porque pouco sabia.

Na saleta que servia de cela, os carcereiros não falavam comigo. Sabe-se lá por quê, sabe-se lá por ordem de quem, fiquei “incomunicável”. E sem banho. E com a mesma roupa. Passava muitas horas pelado. Cheiro de roupa suada é péssimo. Cheiro de gente sem banho não é bom. A comida intragável tinha invariavelmente gosto de frango. O pior era o medo, a incerteza, a sensação de impotência. Ninguém sabia onde eu estava. Nem eu.

Sem mais ou menos, fui libertado na noite de 15 de agosto. Terminado outro interrogatório, o homem com jeito de chefe preencheu uma ficha que me catalogava como “comunista” e avisou: “Pode ir embora”. Não havia o que pegar na saleta, saí diretamente para a rua. Caminhava e respirava fundo. Primeiro com passadas largas, depois quase correndo, fui abraçar a liberdade. Liberdade aparente, veríamos ao longo dos tempos opressivos que mal haviam começado. Só depois de cruzar dezenas de quadras embarquei num ônibus e voltei para casa.

Abri a porta do apartamento e vi no chão o papel timbrado: uma intimação para comparecer no dia seguinte à polícia da Aeronáutica. Sob a assinatura ilegível, lá estava a data em letra de forma: 11 de agosto de 1969. Tecnicamente, portanto, eu fora preso por insubmissão. Já que me recusara a depor voluntariamente, a lei me alcançou no bar.

No fim do ano, o diretor da faculdade convocou os poucos remanescentes da direção do Caco – a maioria estava na cadeia ou na clandestinidade – para dar-nos o recado curto e grosso. Deveríamos pedir de imediato transferência para outra. Quem tentasse ficar seria expulso. Acabei no Mackenzie, em São Paulo, um antro ultradireitista pouco afável com forasteiros militantes. Desisti de estudar Direito no 3º ano da faculdade. E assim deixei de ser presidente do Supremo Tribunal Federal.

É o que explicarei aos leitores no próximo artigo. É o que estou inclinado a provar à comissão federal encarregada de indenizar gente prejudicada pelo regime militar. Se a turma engolir o argumento, logo estarei rico.



anunes@nominimo.ibest.com.br



Escrito por Aleixo às 07h53
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Começar

 

A Internet trouxe a informação de forma muito mais veloz que no passado.

Além do mais, o acesso a alguns textos e autores se tornou mais simples.

Hoje temos a chance de ler um sem número de autores sobre os mais variados temas ao custo da ligação telefônica.

Passo o dia todo conectado, seja no trabalho, seja em casa.

Dessa forma, acabo tendo contato com uma quantidade enorme de informações.

Vou procurar colocar um alguns textos que julgo serem interessantes.

Vamos ver no que vai dar.



Escrito por Aleixo às 07h52
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