Ler e pensar


O Fla-Flu das armas

Guilherme Fiuza

O fenômeno se repete. Na eleição de 2002, quando Lula foi ungido presidente do Brasil, uma situação curiosa se passava em boa parte dos círculos mais esclarecidos da população. Quem não votasse em Lula era olhado da cabeça aos pés com desconfiança. Fosse colega, namorado, amigo de infância, irmão, aquele sujeito tinha algo de muito suspeito, por não querer aderir à corrente do bem. Está acontecendo exatamente a mesma coisa agora, na campanha do plebiscito sobre venda de armas.

O debate está colocado da forma superficial e fajuta de sempre. Quem vota “sim” é contra as armas. Quem vota “não” é a favor das armas. E aí entra a outra lei da raça humana que não falha: quanto mais superficial é o entendedor, mais intolerante ele se revela; e quanto mais intolerante é o indivíduo, mais superficial revela-se o seu entendimento das coisas. Portanto, quem está interessado em discutir a fundo o que vai acontecer com o país quando a venda de armas de fogo for proibida, recolha-se à sua insignificância e aguarde outra oportunidade não-plebiscitária.

No dia em que o debate voltar a ser permitido pelos patrulheiros do bem, seria interessante fazer uma distinção fundamental: desarmamento é uma coisa, proibição do comércio de armas é outra. Isto é, o sujeito pode querer, desejar, sonhar com uma sociedade desarmada, e ao mesmo tempo acreditar que a proibição não o aproxima do seu sonho. Será possível?

O governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, militante do “sim”, divulgou um dado interessante. A campanha pelo desarmamento já reduziu em mais de 40% o número de homicídios no estado. Trata-se do mais poderoso argumento em favor do “não” – não o “não” advogado pela bancada da bala, pelos boçais, os facínoras e as criaturas cheias de ódio e pulsões mórbidas; mas sim o “não” advogado por quem acha que jogar as armas no mercado negro será o maior combustível para a violência observado no Brasil nas últimas décadas. Portanto, para usar a linguagem dos superficiais e intolerantes, será a maior burrice dos últimos tempos.

Como um disco arranhado, o debate sobre o voto “não” sempre enguiça no argumento de que a população civilizada vai ficar sem defesa contra os bandidos armados. Evidentemente não é este o ponto. Jorram estatísticas mostrando que quem tem arma em casa acaba, na maioria dos casos, vítima dela. Ou por acidente, ou porque o bandido saca primeiro, ou porque ela é roubada e usada contra o dono. O mesmo acontece com a arma no porta-luvas, na cintura, em qualquer lugar. Não serve, em termos estatísticos, para defender o cidadão de bem.

A desonestidade da campanha do plebiscito é fazer crer que o voto “não” é necessariamente contra o desarmamento, ou a favor do “direito de cada um defender-se como quiser” etc. A pergunta é: o que acontecerá com a vida brasileira depois de proibida a venda de armas? De saída, uma rápida observação: é permitida a venda de fuzis americanos AR-15 à população civil brasileira? Evidentemente que não. Por que, então, o Rio de Janeiro está coalhado de fuzis AR-15, nas mãos de qualquer um que puder pagar por eles? Porque essas armas existem, foram inventadas um dia pela mente humana, são fabricadas regularmente e os fabricantes fecham os olhos, fazem o sinal da cruz, pedem desculpas a Papai do Céu e entregam-nas aos contrabandistas.

É exatamente o que vai acontecer com os revólveres, pistolas, espingardas e similares, em território brasileiro, com o triunfo do virtuoso “sim”. Os portadores de armas sensibilizados pela campanha do desarmamento estão se desfazendo delas – e continuariam, em número cada vez maior, sem o plebiscito. Não porque estejam sendo obrigados, constrangidos ou bloqueados pela lei. Estão sendo sensibilizados, educados pela via inteligente da dissuasão.

Mas há os que não entregaram suas armas, e não as entregarão em tempo algum. Assim como há os que continuarão querendo armar-se, em qualquer hipótese, e vão procurar a arma onde ela estiver – assim como um fã tarado por Caetano Veloso possivelmente pagará ao cambista se os ingressos para o show estiverem esgotados; como o viciado ou apreciador de um baseado possivelmente pagará ao traficante para fumar maconha (não obstante todas as campanhas positivistas que tentam relacioná-lo aos crimes mais brutais da bandidagem); como vários empreendedores pagaram a contrabandistas, por anos e anos, para ter computadores decentes para suas empresas, driblando a patriótica reserva de mercado da informática; como os apreciadores de um bom vinho e/ou os alcoólatras crônicos pagaram felizes da vida a Al Capone nos Estados Unidos durante a Lei Seca.

No mundo encantado dos patrulheiros do “sim”, a proibição da venda de armas vai matar o desejo de comprá-las, e fazer evaporar as milhares de unidades de fabricação delas. A campanha mundial contra o tabagismo, baseada em informação sobre danos e desglamourização do cigarro, feriu de morte a indústria do tabaco. Não porque proibiu o fumante de entrar no botequim e pedir um maço de Hollywood. Mas porque mostrou a ele que não era exatamente “ao sucesso” que aquela droga o levaria.

Este é o caminho inteligente, civilizado e único para o desarmamento. A dissuasão pelo esclarecimento. Mas quando os homens virtuosos estão lambuzados em suas boas intenções, não adianta pedir-lhes um dedo de prosa se for para contradizê-los. É pena. O bem está prestes a dar ao crime organizado seu grande impulso no século que se inicia.



Escrito por Inquieto às 15h36
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TSE frustra campanha pró-arma da Band

OUTRO CANAL
DANIEL CASTRO
COLUNISTA DA FOLHA

O departamento jurídico da Band estuda medidas contra resolução do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) que disciplina a propaganda sobre o referendo pelo desarmamento. Em 23 de outubro, os eleitores terão que votar "sim" ou "não" à pergunta "O comércio de armas de fogo e munição deve ser proibido no Brasil?".
A resolução proíbe as emissoras de TV e rádio de "veicular propaganda política ou difundir opinião favorável ou contrária a qualquer proposta do referendo" e de "veicular ou divulgar filmes, novelas, minisséries ou qualquer outro programa com alusão ou crítica às frentes parlamentares, mesmo que dissimuladamente, exceto programas jornalísticos ou debates sobre o referendo".
Preliminarmente, executivos da Band avaliam que as normas impedem a veiculação de editoriais e até mesmo discussões com especialistas. A emissora se preparava para veicular uma campanha própria em que defenderia seu ponto de vista sobre o desarmamento.
Em 2003, antes da aprovação do Estatuto do Desarmamento, a Band ocupou seus intervalos com peças em que defendia o "direito legítimo do cidadão" de portar armas. A posição era oposta à da Globo, que defendeu o desarmamento na novela das oito.
Para a Band, as regras do TSE favorecem o "sim", fortalecido pela Globo. Seus advogados estudam se não há cerceamento da liberdade de expressão.


E-mail - daniel.castro@uol.com.br



Escrito por Inquieto às 12h29
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Modo de dizer
por Percival Puggina em 08 de agosto de 2005

Resumo: A Polícia Federal promoveu uma mega-operação no não confessado Caixa 2 da Daslu, enquanto no público e notório Caixa 2 do PT, nem um disquetezinho foi buscado. Tal contradição se explica com o fato de que o PT não tem Caixa 2, mas tão-somente recursos não contabilizados.

© 2005 MidiaSemMascara.org

O modo petista de governar desandou para o modo petista de falar. E vamos combinar que este último é muito superior àquele. Não há como não nos deixarmos seduzir pela precisão de conceitos e fertilidade dos conteúdos.

O país, como bem sabemos, vive uma crise. Ensina-nos o PT que dita crise nada tem a ver com o governo. É uma crise originada na falta de valores republicanos e o melhor encaminhamento que se pode dar às dificuldades da hora presente passa por rigorosa investigação, com critérios republicanos. E para que seja absolutamente republicana, deve começar pondo em pratos limpos o preço efetivamente pago pelo cavalo do marechal Deodoro da Fonseca.

Durante certo período, semanas atrás, a atitude mais republicana que se poderia adotar era impedir que o Congresso investigasse as denúncias que pulavam das páginas dos jornais como pipoca aquecida. Pipoca não republicana, claro. Republicano, naqueles dias, era impedir a formação da CPMI e deixar que a Polícia Federal cuidasse do assunto. A solitária decisão do senador Suplicy ao assinar pela instalação da Comissão de Inquérito não foi um gesto republicano. Republicano teria sido desassinar.

A vida continuou, no entanto, e a CPMI virou coisa republicana, como já se aprendeu, embora certos integrantes da comissão, desalinhados do governo republicano do senhor Luiz Inácio Lula da Silva, não sejam tão republicanos no seu modo de agir, fazendo perguntas muito inconvenientes e extraindo ilações não republicanas. A Polícia Federal promoveu uma mega-operação republicana no não confessado Caixa 2 da Daslu, e levou livre o público e notório Caixa 2 do PT, onde nem um disquetezinho foi buscado. Tal contradição se explica com o fato de que o PT, como partido republicano, não tem Caixa 2, mas tão-somente recursos não contabilizados. E se você, leitor, não sabe a diferença entre uma coisa e outra é
porque não está imbuído de valores republicanos.

Quando o presidente Lula, expressão máxima do republicanismo, afirmou que “com ódio ou sem ódio vão ter que me engolir”, não proferiu um disparate, mas afirmou coisas importantíssimas. Expressou que o ódio não é um sentimento republicano e engoli-lo sim. E não citou nosso velho Zagallo, como muitos, equivocadamente, imaginaram, mas, ao seu modo de dizer, reafirmou um compromisso republicano com o programa Fome Zero.


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Escrito por Inquieto às 16h57
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Desarmamento: dez mentiras sobre o assunto

Desarmamento: dez mentiras sobre o assunto
por Peter Hof em 28 de julho de 2005

 

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Primeira mentira: a campanha para recolher armas das mãos da população é um grande sucesso. Isto é o que vivem apregoando os jornalistas, as ONGs e alguns elementos do Governo. Trata-se de uma grande mentira. Senão vejamos: segundo os últimos dados, foram entregues 350 mil armas por assustados cidadãos de bem numa campanha iniciada em julho de 2004. O Ministro da Justiça trombeteou na imprensa que seriam recolhidas 500 mil armas. Depois o número reduziu-se para 400 mil, e agora patina em 350 mil. Segundo a revista Veja de 20/04/05, edição 1901, pág. 42, existem 8,7 milhões de armas ilegais no país. Somemos a isto os três milhões de armas legais registradas no SINARM. Assim, depois de um ano, foram recolhidas apenas 3% das armas existentes. Isso debaixo de intensa campanha por parte da imprensa, que tem alternado histórias de acidentes com armas de fogo, “por si só tristes e de partir o coração”, com ameaças de prisão sem direito à fiança. O leitor classificaria como um sucesso a Campanha Anti-Pólio do Governo se esta vacinasse apenas 3% das crianças brasileiras em idade de receber a vacina?

Segunda mentira: a campanha para recolher armas tem tido o entusiástico apoio de todas as faixas etárias e de todas as classes sociais. Segundo o jornal O Globo (19/10/04, pág. 16), 42% das pessoas que entregaram armas tinham mais de 60 anos, e 20% entre 50 e 59 anos. O que isto significa? Que quem está entregando suas armas são idosos, em especial viúvas, com medo das ameaças através da imprensa para quem cometer o pecado capital de ter uma arma em casa para sua defesa, somado à idéia de receber míseros 100 reais por uma arma que pode valer até 20 vezes mais. Para coroar, o mesmo O Globo de 15/06/05 publica que apenas 10% das armas recolhidas na campanha foram entregues por pessoas das classes A e B. Assim, este seria o perfil dos otários que caíram na conversa fiada do governo e da imprensa: idosos e pobres, que buscavam receber um dinheirinho que o governo agora reluta em lhes pagar. Pensando melhor, bem feito! Quem manda confiar nesse governo...

Terceira mentira: ter arma em casa não defende um cidadão da ação dos bandidos. No Brasil este número é difícil de se obter, pois ninguém é tolo o suficiente para declarar numa delegacia que expulsou a tiro alguém que tentava invadir sua casa. Neste país defender o seu lar e sua família pode dar cadeia. Mas a revista brasileira Magnum tem uma seção intitulada Resposta Armada onde, a cada edição, são mostrados casos documentados de cidadãos que escaparam de assaltos ou coisa pior por terem uma arma à mão. Nos Estados Unidos, a revista National Rifleman mantém uma coluna mensal de uma página inteira com inúmeras narrativas de cidadãos que puderam se defender contra assaltantes por terem uma arma à mão. O leitor pode ainda acessar o site http://old-yankee.com/rkba/armcit/. Lá encontrará uma farta e bem documentada relação de pessoas que evitaram problemas com o uso de suas armas de fogo.

Quarta mentira: é preciso desarmar os cidadãos de bem para acabarmos com as cem mortes por armas de fogo que ocorrem diariamente. O Governo e os antiarmas que batem tanto nesta tecla sempre “esquecem” de dizer que este é o total de mortes ocorridas - ou seja, aí estão incluídas mortes decorrentes da guerra do tráfico, assaltos, policiais mortos, execuções - o qual não vai sofrer alteração devido ao Estatuto do Desarmamento. A verdade, que todos os antiarmas desesperadamente tratam de ocultar, é que apenas 3,7% (três vírgula sete por cento) das cem mortes diárias são causadas por cidadãos sem passado criminal.



Escrito por Inquieto às 13h54
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Desarmamento: dez mentiras sobre o assunto

Quinta mentira: o cidadão de bem não precisa de arma, a função de protegê-lo é tarefa da polícia. Esta é uma combinação de mentira com piada de mau gosto. O tempo de resposta da polícia do Rio de Janeiro a um chamado 190 pode chegar até noventa minutos, isto quando a polícia atende. Além do mais, as polícias estão desaparelhadas, com veículos em mau estado e com pouca gasolina, e a situação tende a piorar com o corte de mais de 500 milhões de reais feitos pelo governo Lula no Orçamento de Segurança. Este dinheiro, que deveria ir para os governos estaduais, está servindo para aumentar o superávit primário. O jornal O Globo, com uma freqüência assustadora, publica cartas de leitores que pediram auxílio à polícia e estão até hoje esperando que esta os socorra.

Sexta mentira: países que se empenharam em um programa de desarmamento dos cidadãos obtiveram um retumbante sucesso. A Inglaterra é o melhor exemplo. Esta é a mais perversa e goebelliana de todas as mentiras. Os antiarmas pegaram uma história, deram-lhe uma guinada de 180 graus e apresentam como sucesso o que foi e vem sendo uma fragorosa derrota. Basta ler o livro GUNS AND VIOLENCE - The English experience - escrito por Joyce Lee Malcolm (340 páginas, editado pela Editora da Universidade de Harvard, 2002, US$ 11,53). O livro, extremamente bem documentado mostra que a Velha e querida Inglaterra da literatura é hoje um país mergulhado numa violência sem precedentes. Apenas um exemplo pinçado do livro: entre 1989 e 1996 os crimes por armas de fogo, na Inglaterra, aumentaram 500% (quinhentos por cento).

Sétima mentira: os resultados no Brasil já começam a ser notados. Há uma sensível redução nos homicídios. Conversa fiada. Em São Paulo os repórteres da Folha contestaram as estatísticas oficiais em matéria publicada em 17/01/05. Mesmo assim houve uma redução nos crimes. Os antiarmas apenas “esquecem” outra vez de dizer que a ocorrência de homicídios dolosos na cidade de São Paulo e na Grande São Paulo vem caindo substancialmente desde o Primeiro Trimestre de 2000, três anos antes da vigência do Estatuto do Desarmamento (vide relatório Estatística da Criminalidade; Coordenadoria de Análise e Planejamento - Secretaria de Segurança Pública - São Paulo, 2005). O mérito, portanto, é da Polícia de São Paulo e dos investimentos em segurança feitos pelo Estado de São Paulo, e não como resultado do asinino Estatuto. No Rio de Janeiro, com uma diferente estratégia de enfrentar o crime, os homicídios com armas de fogo no primeiro trimestre de 2005, comparados com 2004, aumentaram em 10%, batendo em março o recorde histórico do ano de 1995. Aqui também aparece a mesma velhacaria: apresenta-se um número fechado (total de homicídios) e como sempre se esquecem de abri-lo em crimes evitáveis e não evitáveis pelo Estatuto do Desarmamento.



Escrito por Inquieto às 13h53
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Desarmamento: dez mentiras sobre o assunto

Oitava mentira: o Estatuto do Desarmamento não proíbe a posse de armas de fogo, ela apenas a regulamenta. Qualquer pessoa que se deu ao trabalho de ler a Lei no 10.826, de 22 de dezembro de 2003, mais conhecida como Estatuto do Desarmamento, sabe perfeitamente que as dificuldades criadas são tantas que o cidadão de bem não consegue cumpri-las, seja pelo aspecto burocrático seja pelo custo. Segundo um despachante que consultei, o custo para o registro de uma arma de fogo é de R$ 1.100 (300 para o governo, 250 de honorários do despachante, 250 de certidões negativas, 200 do psicotécnico, 100 para aluguel do stand para a prova prática em um clube de tiro). E como faz alguém que more em uma localidade onde não exista delegacia da Polícia Federal ou clube de tiro? O que acontecerá com uma pessoa que se aposentou e passa a receber esta miséria que o governo paga (exceto para aqueles aposentados classificados como “perseguidos políticos”)? Como se não bastasse, essa despesa e esse imenso aborrecimento devem se repetir a cada três anos! E se a pessoa por alguma razão não passar em qualquer exame durante a renovação, a arma será confiscada pela polícia. Pergunte a um advogado onde se encontra capitulada, na Constituição Brasileira, a figura do confisco para casos como esse.

Nona mentira: o ‘lobby da armaria’ está cheio de dinheiro e vai jogar pesado. Interessante que o ‘lobby da armaria’, como jornal O Globo, num maroto esforço para desmoralizar aqueles que defendem o direito a autodefesa nos chama, não recebe um tostão de organismos internacionais enquanto o Viva-Rio refestela-se em generosas contribuições anuais do Governo Inglês (2,5 milhões de reais/ano). Uma prova disto está nos anúncios de página inteira que os antiarmas publicaram em O Globo de 24/6/05 e 6/7/05. Segundo me informou a funcionária da área comercial de O Globo, um anúncio deste tipo, que o jornal classifica como De Opinião, custa ‘apenas’ R$ 390.312,00 (Trezentos e noventa mil trezentos e doze reais). Assim, os dois anúncios somados totalizaram R$ 780.624,00 (Setecentos e oitenta mil seiscentos e vinte e quatro reais). Sobre esse valor é preciso ainda acrescentar o custo de produção que também não é barato. Isto só para pressionar (neste caso O Globo não considera lobby) os deputados para que votassem o referendo para este ano. Imaginem a quantidade de dinheiro que esse pessoal tem para despejar durante a campanha! E aqui vale abrir um parêntesis: em uma mesa redonda na TV Câmara (30/6/05), da qual participaram os deputados Josias Quintal, Alberto Fraga, o delegado federal Wilson Damásio, o professor Bene Barbosa (Viva Brasil) e o senhor Antonio Rangel (Viva Rio), o professor Bene, cuja ONG defende o direito do cidadão se defender com uma arma de fogo, contou que o Viva Brasil, dentro de suas modestas disponibilidades financeiras, havia doado 10 coletes a prova de bala para a polícia. Cada colete custa R$ 2.500,00. Os antiarmas gastaram 780 mil reais com dois anúncios, apenas para apoiar a definição de uma data para o referendo. Este valor equivale ao custo de 312 coletes. Pergunto ao leitor: o que traz mais benefício para a segurança dos policiais, e por extensão dos cidadãos: 312 coletes ou dois anúncios de jornal? Talvez os antiarmas não tenham grande apreciação pela vida dos policiais...

Décima mentira: o Estatuto do Desarmamento representa um passo avante para a sociedade brasileira e por isto deve ter o apoio de todos os brasileiros, sem exceção. Se isto é verdade por que Deputados e Senadores se auto-excluíram das restrições à posse e porte de armas de fogo? Por que decidiram continuar gozando de um privilégio que cassaram de toda a população brasileira? Se desarmar o cidadão é tão importante assim, não deveriam Suas Excelências dar o bom exemplo sendo os primeiros a abrir mão desse odioso privilégio?


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Escrito por Inquieto às 13h52
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CHANCE NA SORBONNE

Janer Cristaldo

Os grandes escritores sempre tentaram - mas nem sempre conseguiram - criar um personagem que sintetize uma coletividade ou, pelo menos, um certo tipo de seres. Jerzy Kozinski o conseguiu. Falo de Being There, traduzido no Brasil como O Vidiota.

Chance Gardiner, o personagem, é dos mais perturbadores de nossa época. Quem não leu o livro, pode ainda pegar o filme, que passou no Brasil com o título de Muito além do Jardim e tem uma interpretação magnífica de Peter Sellers. O tradutor brasileiro do livro teve um momento de iluminação ao traduzir o título americano por O Vidiota, isto é, o idiota do vídeo. Gardiner é o jardineiro de um misterioso senhor, identificado na obra como "o Velho". Chance vive recluso no jardim da mansão e só teve contato, em toda sua vida, com duas pessoas, o Velho e a criada do Velho. Chama-se Chance porque nasceu por acaso. Não sabe ler nem escrever. Seu único contato com o mundo exterior é através da televisão. Quando o que vê não lhe agrada, é simples: desliga o aparelho ou muda de canal com o controle remoto.

Morre o Velho e Chance é largado no mundo pelos herdeiros. Sem lenço nem documento, literalmente. Quando a esposa de um senador o atropela na rua e lhe pergunta quem é, diz: I?m the gardener. A mulher imediatamente o relaciona com algum milionário de sobrenome Gardiner, e nosso personagem passa a ser conhecido como Chance Gardiner. Como não portava nem dinheiro nem documentos, a mulher do senador considera que deve ser alguém muito importante e o recolhe à sua casa. Além do mais, vestia as antigas roupas do velho, que agora eram o must em termos de moda. Chance, sem jamais ter pensado no assunto, passa a fazer parte do círculo do poder. Certo dia, o senador recebe a visita do presidente dos Estados Unidos e o apresenta como economista.

- E você, Mr. Gardiner, o que pensa do mau clima na Bolsa? - pergunta o presidente a Chance.
Chance Gardiner, da vida só conhece o jardim onde se criou. Como se sente obrigado a uma resposta, fala da única coisa que conhece:
- Em um jardim, há uma estação para o crescimento das plantas. Há a primavera e o verão, mas também o outono e o inverno. E depois, a primavera e o verão voltam. Enquanto as raízes não forem cortadas, tudo está bem, e tudo continuará bem.
O presidente se mostra satisfeito:
- Mr. Gardiner, devo confessar que o que você acaba de dizer é uma das declarações mais reconfortantes e otimistas que me foi dado ouvir, desde há muito tempo.

Dia seguinte, o presidente fala em cadeia nacional e, ao discorrer sobre economia, cita a sábia observação de Gardiner. Jornalistas e serviços de segurança, CIA e FBI, se desesperam na busca de dados sobre o novo economista. Descobrem até o número de sua cueca, mas não encontram um único registro documental de sua existência. Estamos em plena Guerra Fria e os agentes americanos já começam a desconfiar da existência de alguma tramóia soviética. Mas também a KGB quer saber quem é o novo conselheiro do presidente e não chega a resultado algum.

Quem leu o livro ou viu o filme conhece o fim da história: a força de repetir chavões que ouviu na televisão, Chance faz uma brilhante carreira na mídia e começa a ser cogitado para presidente dos Estados Unidos. E quem não leu Kosinski, deve lê-lo imediatamente: é uma das mais profundas parábolas da literatura contemporânea. Estamos vivendo em plena época Gardiner, de ascensão do analfabeto. Com a televisão, qualquer iletrado pode ter uma idéia mais ou menos geral do que ocorre em torno a si e no mundo. A rigor, ninguém precisa mais ler para entender - ou supor que entende - o mundo.

Quem chegou até aqui, já intuiu de quem pretendo falar. Desde as primeiras candidaturas de Lula, vi no Supremo Apedeuta a mais perfeita encarnação do personagem de Kozinski. Venho afirmando isso há muitos anos, desde as primeiras candidaturas de Lula, e se hoje me repito é porque tenho consciência da frágil memória dos leitores.

De líder sindical no ABC paulistano, um nordestino analfabeto - manipulado pela Igreja Católica e pelos intelectuais uspianos, que ainda cultivam o velho sonho bolchevique de um presidente operário - foi crescendo até tornar-se a esperança de um país novo. Tenta três vezes a presidência da República e é por três vezes derrotado. Insiste e na quarta chega à Suprema Magistratura. Sem instrução alguma, sem leituras, sem nenhuma experiência administrativa, nem mesmo a gestão de uma padaria ou boteco, é saudado urbi et orbi como a Esperança não só do Brasil, mas da América Latina.


Escrito por Inquieto às 15h37
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CHANCE NA SORBONNE

 

Se alguém objetava como poderia este ser tosco e despreparado gerir uma economia vasta e complexa como a brasileira, a resposta já estava na ponta da língua: basta que seja honesto e escolha bons assessores. A Esperança da América Latina escolheu então seus ministros. Para começar, elegeu como eminência parda um ex-terrorista com curso de guerrilha em Cuba. Os demais ministérios, distribuiu-os a comunistas, compagnons de route e companheiros de partidos que haviam sido rejeitado pelos eleitores de seus respectivos Estados.

O resultado aí está: um deputado federal - réu confesso de crimes eleitorais - lança uma série de denúncias, denúncias graves mas sem prova alguma, e os ministros da Esperança dos Oprimidos da Terra começam a cair como uma fileira de dominós. Denúncias vazias, conspiração das elites, resmunga a Esperança dos Povos. Mas porque então derrubar ministros e demitir assessores e militantes de seus cargos, se não há prova de crime algum?

Estamos vivendo dias de O Processo, de Kafka. Ninguém é culpado de nada e todos caem como moscas borrifadas com inseticida. As denúncias começaram com um magro achaque de três mil reais, que logo se revelou girar em torno de milhões e hoje já ultrapassa a casa do bilhão de reais. E o imbróglio está longe de seu fim. A Esperança dos Humildes, cúmplice da mais vasta rede de conspiração jamais vista na História do país, só não é destituído porque seus adversários querem vê-lo rastejando nas eleições de 2006.

Semana passada, Chance da Silva largou a crise à deriva e foi a Paris, para participar da dilapidação do dinheiro dos contribuintes, em nome de supostas comemorações culturais entre França e Brasil. Digo supostas comemorações culturais porque de cultura não se tratou, mas sim da promoção do show business tupiniquim. Lula saudou Jacques Chirac como grande estadista, logo Chirac que há uns vinte anos era insultado pelas esquerdas como homem de extrema direita. Chirac mandou o elevador de volta e distribuiu mimos similares ao Chance Gardiner de Garanhuns. Pois os europeus, e particularmente os franceses, adoram presidentes operários... desde que seja longe da Europa.

O Supremo Apedeuta fez, na ocasião - segundo a imprensa nossa - uma palestra na Universidade de Sorbonne. É de supor-se que até mesmo Lula tenha certeza de que fez uma palestra na Universidade de Sorbonne.

Jornalista, por ofício, é um homem bem informado e em verdade não podemos nos queixar do nível de informação de nossos profissionais de imprensa. E é exatamente isto que demonstra a ciclópica desinformação de nossos jornalistas. A Universidade de Sorbonne deixou de existir há exatos 37 anos. Morreu em 1968. Há quase quatro décadas. O que hoje existe são as universidades de Paris I, II, III... até Paris XII, creio. A única universidade a herdar o nome de Sorbonne é a Paris III, também conhecida com Université de la Sorbonne Nouvelle. O que existe hoje é o antigo prédio da Sorbonne, onde hoje funciona a Paris IV. O prédio, e nada mais.

O Gardiner tupiniquim deve ter-se sentido muito orgulhoso por ter saído de uma infância pobre em Garanhuns para deitar falação na Université de la Sorbonne. A Esperança das Nações, que de francês parece conhecer apenas duas palavras - merci bocu, pois assim deve soletrá-las em seu bestunto - talvez um dia rememore a seus netos o momento memorável de sua palestra na Universidade de Sorbonne, afinal assim a imprensa brasileira atesta. O pobre coitado, prisioneiro da língua e da própria insciência, deficiência inconcebível em um chefe de Estado, nem sabia onde estava. Idi Amin Dada, de triste memória, pelo menos falava inglês além de sua língua nativa.

A grande imprensa brasileira, ou quis ser gentil com o Supremo Apedeuta, ou talvez participe de boa parcela de sua ignorância. Outra explicação não há.



Escrito por Inquieto às 15h37
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Crime cai em São Paulo e Bogotá


Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
Bairro de Alto do Cazuca, na Grande Bogotá: queda de 50% em homicídios
Bairro de Alto do Cazuca, na Grande Bogotá: queda de 50% em homicídios
27.06.2005 |  Basta ligar a TV à tarde em São Paulo para se ter certeza de que vivemos uma guerra civil. Histórias de polícia versus bandidos, tiroteios, assaltos, tráfico, rebeliões, crimes horrendos e muito sangue avermelham a tela em pouco tempo. Não são incomuns as comparações com nações em guerra, como a vizinha Colômbia, onde grupos guerrilheiros e paramilitares lutam pelo poder desde os anos 1960. Não há dúvida de que os índices de violência e mortes ainda são bastante altos nos dois países. Mas, tanto aqui como lá, começam a surgir boas notícias nesse front graças a políticas de desarmamento e estratégias inteligentes e coordenadas que integram polícia, governos e sociedade. O problema é que as vitórias nessa guerra raramente saem nas manchetes dos jornais.

Não que os paulistanos vivam num paraíso de segurança. Afinal, o índice atual de 36,9 homicídios por ano em cada grupo de 100 mil habitantes está quase quatro vezes acima do que seria admissível em qualquer país do primeiro mundo. Mas o anúncio dos resultados de pesquisas importantes da Unesco e da Fundação Seade, mostrando a consistente queda no número de assassinatos no estado de São Paulo nos últimos cinco anos, teve repercussão pífia. O sangue e a miséria sempre chamam muito mais a atenção! Na verdade, segundo os estudos, houve uma redução de 29% nos homicídios de 1999 a 2004.

De acordo com o Seade, o índice da capital paulista no mesmo período é ainda mais impressionante: redução de 40,6% nos homicídios. O principal destaque vai para o Jardim Ângela, que já foi considerado pela ONU como o bairro mais violento do mundo, com uma média de dois assassinatos por dia em 1999. Pois o número de homicídios caiu incríveis 73,3%, e até sexta-feira, 24 de junho, o bairro contabilizava 64 dias sem uma única morte. Seus moradores já não têm tanto medo em sair às ruas e, pouco a pouco, começam a recobrar a auto-estima.

Acredite ou não, a situação é muito parecida com a que vive a capital colombiana. E para o bem! Em 1994, houve 4.457 homicídios em Bogotá, representando uma taxa de 80 mortes para cada 100 mil habitantes (semelhante à do Rio de Janeiro, com um índice de 73,6/100 mil no ano passado). Em 2003, a cidade registrou 1,607 homicídios, ou cerca de 23,4/100 mil. Uma redução de 48% em dez anos. Bogotá é uma capital menos violenta do que São Paulo.


Escrito por Inquieto às 17h21
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Crime cai em São Paulo e Bogotá

 As armas na parede do padre

Vinicius Souza e Maria Eugênia Sá
Membros da ONG Projeto Justiça e Vida: ajuda a mães carentes de Ciudad Bolívar
Membros da ONG Projeto Justiça e Vida: ajuda a mães carentes de Ciudad Bolívar
A pergunta, então, é: como essas cidades lograram tal êxito? A resposta começa com o desarmamento da população. "Esta é uma solução que não acaba com os conflitos, mas diminui muito a letalidade dos confrontos", afirma Denis Mizne, diretor do Instituto Sou da Paz, de São Paulo. Os números parecem comprovar sua teoria: o Sistema Único de Saúde do estado registrou em 2004 uma queda de 7% nas internações por ferimento a bala em relação a 2003. Para Mizne, este índice está diretamente relacionado à entrega de 110.535 armas à Polícia Federal entre 15 de julho de 2004 e 1º de junho último pela campanha oficial de desarmamento - fora as 3.550 armas recolhidas pela Campanha Sou da Paz desde 1997. Não existem números específicos para a cidade de São Paulo.

Em Bogotá, é possível fazer a mesma analogia: após uma campanha de desarmamento realizada em 1996 pela prefeitura da cidade - que recolheu 2.566 armas, 350 granadas, sete bananas de dinamite e até uma mina de fabricação israelense -, houve uma queda imediata no número de homicídios por arma de fogo de 31,36% em dezembro daquele ano em relação ao mesmo mês de 1995. Devido a seu sucesso, outras "jornadas cívicas pelo desarmamento" foram realizadas pela igreja católica e pelo governo entre 1998/99, 2001 a 2003, novamente em 2004 e continuam este ano. A queda nos homicídios, entre o primeiro semestre de 2000 e o mesmo período de 2003, foi da ordem de 5,3%.

"Aqui utilizamos um tipo de campanha semelhante à realizada em Nova York, com a troca das armas e munições por bônus que podem ser convertidos em alimentos, roupas ou livros", explica o padre Alírio López Aguilera, diretor do Programa para a Vida Sagrada e Desarmamento da Secretaria de Governo de Bogotá. "Acreditamos que é melhor do que pagar em dinheiro pelas armas, porque assim o valor entregue não vai para bebidas ou cigarros." Cada espingarda de fabricação caseira vale cerca de R$ 40,00 e armas industrializadas são trocadas por bônus que equivalem a cerca de R$ 200,00 em mercadorias. Nas campanhas, revólveres de brinquedo também podem ser trocadas por revistas para colorir, lápis e doces. As armas que não são destruídas viram "obras de arte" e "instrumentos musicais" que adornam as paredes do escritório do padre.

Apesar de eficiente, rápido e fundamental, o desarmamento isolado tem impacto apenas parcial na queda da violência. Sem outras iniciativas associadas, os números tendem a se estabilizar em patamares ainda elevados. É aí que entra outra ferramenta revolucionária na luta contra o crime: o mapeamento geo-refenciado da criminalidade. "Este é um instrumento de inteligência usado há pouco tempo em São Paulo, mas que permite uma ação mais efetiva da polícia e uma integração maior com a sociedade", explica Mizne. "Por meio do Infocrim, da Secretaria de Segurança, a polícia sabe exatamente quais ocorrências são mais comuns em lugares específicos da cidade e pode compartilhar essa informação com a comunidade local, que conhece as falhas que facilitam esses crimes, como a pouca iluminação de uma rua, um semáforo lento, ponto de venda de drogas, degradação da área urbana, etc".

"A padronização da metodologia de aferição dos crimes, o mapeamento geo-referenciado e principalmente a utilização inteligente desses dados por três administrações consecutivas em Bogotá, desde a metade dos anos 90, são os grandes responsáveis pelas políticas de segurança que diminuíram a violência na cidade", afirma Rafael Espinosa del Vallín, pesquisador associado do Instituto de Pesquisa e Desenvolvimento em Prevenção à Violência e Promoção da Convivência Social da Colômbia (CISALVA). "Foi por meio desses dados que se construiu, por exemplo, um programa de cultura e cidadania para recuperar espaços públicos importantes como a Plaza San Victorino, no centro da cidade, que estava entregue ao comércio ilegal de drogas e armas" – lembra o pesquisador.


Escrito por Inquieto às 17h19
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